Helloween em São Paulo: Uma Celebração Pra Guardar Na Memória

Amanda Basso

Oi, sou Amanda Basso, jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi, viajante por natureza, amo contar histórias - mesmo as que eu não deveria contar… Somei a paixão por criar, ao fanatismo por uma certa Donzela de Ferro e fiz o Maiden Chest, podcast focado na história e bootlegs do Iron Maiden, ah, coleciono material deles também! Escrevo pro Headbangers Brasil, Confere Rock e agora aqui… Mãe da Charlotte e da Natalinha, uma gata e uma pombinha que mandam na minha vida!

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Você percebe que uma banda atravessa gerações quando você entra numa arena, ou num teatro, e percebe adultos e crianças com o mesmo brilho nos olhos. Sabe aquela ansiedade de encontrar ou reencontrar alguém que se ama e admira? Esse é o sentimento que iguala todos os fãs – novos e antigos – num mesmo rebanho de “condenados” a amar.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

O Suhai estava com lotação esgotada neste último sábado, 19, e mesmo com alguns relatos de percalços para chegar ao local, nada diminuiu a empolgação do público (estimado em 9000 pessoas), que respondeu prontamente ao chamado de Andi Deris e Michael Kiske para gritar o máximo que conseguissem.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

O show estava marcado para às 21 horas, mas às 19, com a abertura dos portões, o Shopping SP Market já se pintava com o preto das camisetas da audiência. Velhos amigos se encontram, novos se conhecem… e assim se forma outra leva de fãs que se emocionarão ao se lembrarem dessa noite. “Let Me Entertain You” (a do Robbie Williams, não do Queen) entra nos p.a’s, deixando todos prontos para o que viria. Uma cortina gigantesca, com o nome Helloween estampado caía com o final do esquenta, para a subida de um tema épico (Helloween 40 Anniversary Tour) e com os olhos da abóbora aparecendo no telão de fundo do palco. Um a um, os detalhes do mascote apareciam, para depois explodir, emendando com todos os álbuns aparecendo, contando uma trajetória de sucesso… uma pausa e um estrondo. Sem entender o que acontecia no palco, num piscar de olhos, a banda aparece tocando “March of Time”.

O show começou com um nível muito alto, uma felicidade contagiante, mesmo com uma plateia bem lotada, era difícil não se deixar levar pelo que estava acontecendo ali, tão perto: Deris e Kiske dividindo o microfone como amigos, regendo a audiência como verdadeiros mestres. E é extremamente emocionante ver a formação atual no palco, um resumo de toda a história desses alemães pioneiros, que mostraram ao mundo que é possível misturar peso, velocidade, virtuosismo e mesmo assim não ser chato! Helloween marcou seu lugar na música, e mantém o seu legado mais ativo que nunca. “The King For a 1000 Years” foi abreviada pela banda, para que o espetáculo fosse mais dinâmico, e foi urrada do começo ao fim pelo público.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Uma situação que parece mais recorrente hoje é o acesso ao setlist antes do evento. Com a divulgação de inúmeros vídeos e coberturas ao redor do mundo, o fã sabe o que esperar, mas é incrível como isso não atrapalha o ânimo e a emoção de cantar “Future World”, um hino de 1987, com lágrimas nos olhos e confete grudado na cara. Era essa a realidade: música alta, coração na garganta, letra na ponta da língua, confete no rosto e serpentina enrolada no corpo (além de pendurada em toda a estrutura do Suhai). Foi surreal! Toda a banda passou pela passarela extensiva do palco – e todos foram ovacionados igualmente. Michael e Andi desafiaram a platéia a gritar o mais alto possível. O desafio foi aceito e superado com sucesso! O pulmão do fã que veio para Interlagos está em dia, pois os decibéis foram estourados, com certeza. Andi falou, rindo, que teria um problema agora, pois não estava mais ouvindo nada. Isso depois de suas inúmeras tentativas de falar português…

Fiquei apreensiva com “This is Tokyo”, porque muita gente nas redes estava questionando a presença do tema no setlist, mas a aceitação foi extrema, o que prova que o último trabalho inédito das abóboras, “Giants & Monsters”, de 2025, foi bem recebido. E a primeira pedrada de “The Time of the Oath” apareceu com “We Burn”. Nesta música as guitarras parecem se embolar um pouco, aliás, muitos reclamaram desse problema, principalmente os que estavam na parte de trás da pista.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

O chão já estava grudando por causa do calor condensado dentro da casa, as pessoas se resolviam como conseguiam: um papel, leque, a aba de um boné… tudo servia para se abanar e tentar fazer diminuir um pouquinho a temperatura que estava começando a fazer a pressão cair.

Dois clássicos jurássicos da banda desfilam consecutivamente: “Twilight of the Gods”, do aclamado “Keeper of the Seven Keys pt 1”, de 1987 e “Ride the Sky”, na voz de Kai Hansen, do embrião do power metal, “Walls of Jericho”, de 1985, o começo de tudo. E um contraste interessante aqui: depois de dois títulos formadores de caráter, verdadeiros turbilhões na nossa cabeça, a forte, nova e introspectiva “Into the Sun”, uma power ballad densa e reflexiva do álbum atual. Um show à parte, público com os flashes acesos, como se fossem pequenas estrelas iluminando aquela noite; Michael num show de interpretação, Deris com um sentimento na voz, que era quase um lamento cortante, que entrava no teu peito como uma flecha.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Mas quem conhece a banda, sabe que o clima não pode ficar sério e nem denso demais, sendo assim, “el señor” Andi Deris, o habitante mais ilustre de Tenerife, Espanha, assume a frente do palco e começa uma conversa como se fosse seu melhor amigo de anos. Ele fala sobre o quanto eles já tocaram nessa turnê, mas que esse era o último show e eles não poderiam ter escolhido lugar melhor para o encerramento. Então ele fala: “temos um presente pra todos vocês!” E enquanto todos esperavam “Hell Was Made in Heaven”, Michael Weikath começa um riff frenético com apoio de Kai e Sascha Gerstner, os três cavaleiros do apocalipse, juntos com os pedais poderosos de Dani Löble e o peso preciso de Markus Grosskopf e a surpresa emendada na voz de Deris: “I’m Alive” é a escolha perfeita para aquele momento. Tocada pela primeira (e única) vez nesta turnê.

O Suhai tremia, o público não fez moshpits, mas curtiu, gritou, cantou, chorou… e chorou muito!

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

“Hey Lord!” trouxe a energia do final dos anos 90 de volta. A única em que a audiência pulou e dançou. Andi mal se deu ao trabalho de cantar o refrão todo. E, mais uma vez, uma queridinha do fã veio acompanhada de um futuro clássico: “Universe (Gravity for Hearts)”, presente no último disco, manteve todos cantando, mostrando que é um tema que apresenta todo o molde que os pais do power metal criaram: uma voz melodiosa, emoldurada por guitarras virtuosas, abraçadas por um baixo presente e pulsante, arrematado por uma bateria que mais parece uma metralhadora com a explosão de um canhão!

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Os alemães saem de cena, para a aula que Dani Löble daria a seguir: um solo de bateria forte, dinâmico vindo de uma escola chamada Eric Carr High School. Suas interações com a platéia e, principalmente, sua finalização lembraram muito o que “The Fox” fez com o Kiss em 1983, em seu solo durante a música “God of Thunder”. E nesse ponto um cumprimento ao técnico de som porque o que era o som daquela bateria? Um peso infernal, um kick que se sentia na boca do estômago. E não era só volume, porque o som era claro, límpido. Admirável!

“I Want Out” aparece como um tesouro encontrado e muito esperado. Kiske quase não cantou; não precisava. O hino sobre a insatisfação com o sistema era tão atual, tão decorado por todos, que a letra foi como um grito de liberdade. “Eu estou fora!” E quem não gostaria? Mas embora sempre exista tempo para a revolta com o sistema, agora era o momento de lembrar porquê estávamos ali, todos juntos: pela música. Éramos 9 mil rostos desconhecidos juntos, com apenas uma coisa em comum. Andi e Michael sentaram na passarela do palco, mais próximos de todos, num clima “banquinho e violão” (mas bem mais legal). Alguns mestres foram relembrados. Kiske começa a tocar no violão e cantar “We’re caught in a trap, I can’t walk out, because I love you too much, baby” e “Suspicious Mind”, eternizada na voz do Rei Elvis Presley, apareceu linda através de Kiske, 57 anos depois de seu lançamento. Ele e Deris sorriram. De repente um dedilhado, um conhecido por todos. E Sir Paul McCartney sobe ao palco travestido de Andi em “Yesterday”. Não é necessário cantar, a audiência fez sua parte e mostrou que Beatles é o berço de todos. Um coro uníssono de amor, emoção e mais lágrimas. Auge da comemoração! E embora o show se encaminhasse para sua conclusão, algo que fez tremer as pernas ainda estava para acontecer: “The Tale That Wasn’t Right” começou acústica, tímida, mas crescendo aos poucos, até que em seu solo, Weikath entra junto com o restante da banda e o que começou singelo, terminou numa catarse iluminada por milhares de celulares.

E como o Helloween fez em todo o show, um hino vem sempre acompanhado por uma das caçulas: “A Little is a Little Too Much” foi a última representante do álbum atual a figurar no set. Ao fim da música, Kai Hansen vai a frente da passarela, contar como está feliz com toda essa turnê, e como ele amou ter encerrado a excursão no Brasil, porque ele adorava o país, o público e principalmente “caipirinha”, disse inclusive que estava morrendo de sede, porque deixou o copo dele no camarim. Em meio às risadas de todos, Kai voltou ao centro do palco, e o fã “sênior” das abóboras veio ao delírio. “Heavy Metal (Is the Law)”, presente em “Walls of Jericho”, começou e Hansen quase não cantou e não porque a voz não estava chegando nem perto sequer do que ele precisava, mas porque os fãs urravam, bradavam o máximo possível cada letra deste clássico mais antigo que muitos presentes. E para encerrar o show: Halloween! E foi completa, todos os seus pouco mais de 13 minutos.

E como dizem no futebol: “pausa para hidratação”. E o público levou a sério, porque bastou o palco escurecer para acontecer uma pequena debandada para o bar da casa, que deixou um pouco a desejar, já que era pequeno, com poucos funcionários e único!

Antes do show voltar de fato, a banda agradece a todos os presentes, dizendo que a data era especial não apenas por estarem no Brasil, celebrando sua história e fechando uma turnê de sucesso com um show “sold out”, mas também por ser aniversário de um membro querido da equipe. Ace entra no palco, enquanto na outra extremidade, a produção traz um bolo com uma velinha a ser apagada. Somos 9 mil pessoas num parabéns alegre e cheio de chantilly na cara do aniversariante, graças ao comediante Andi Deris. Kai Hansen mostra sua alegria, erguendo um copo de caipirinha cheio até a boca, num brinde de amigo. Detalhe: esse copo permanece no palco até o final do bis.

Todos de volta, agora para a reta final. Certa tristeza no ar, porque era uma festa que não dava vontade de sair… “Eagle Fly Free” começa e, enquanto Andi ficava levemente escondido no canto do palco, esperando sua vez de cantar, Kiske encara uma crise de riso por se perder no meio de um de seus maiores clássicos! Não teve desespero, não teve cara feia, só risada e aquela expressão de “é, fazer o quê?”. Mas se existe uma música que o Helloween não precisa cantar é essa: outro coro uníssono tão estrondoso quanto um temporal. “Power” começa como um acontecimento, quase emendada com o hino anterior, Deris sai daquele canto mencionado, cantando e quase gargalhando, outra canção sem necessidade de vocalista. Aliás, até o final será assim, só que com mais explosões de confetes e serpentinas, bexigas laranjas, com a carinha da abóbora desenhada pulando em toda a pista, pessoas entrando no palco com aventais e máscaras cirúrgicas em “Dr Stein”, e a emoção final com o refrão derradeiro de “Keeper of the Seven Keys”.

Um show impecável, com uma banda que sabe o seu tamanho e com fãs que reconhecem o legado e a história que estão presenciando. Helloween completou 40 anos e celebrou a sua trajetória de forma digna, honesta e com a alegria de quem sobe no palco para se divertir mais que a criança que os está vendo pela primeira vez.

Crédito: Ricardo Matsukawa / Mercury Concerts

Galeria de Fotos

SETLIST SP – SUHAI 19/09/2026:

Let Me Entertain You (Robbie Williams)

Helloween 40 Anniversary Tour Intro

March of Time

The King for a 1000 Years

Future World

This Is Tokyo

We Burn

Twilight of the Gods

Ride the Sky

Into the Sun

I’m Alive

Hey Lord!

Universe (Gravity for Hearts)

Drum Solo

I Want Out

Acústico:Suspicious Mind/Yesterday

A Tale That Wasn’t Right

A Little Is a Little Too Much

Heavy Metal (Is the Law)

Halloween

Invitation

Eagle Fly Free

Power

Dr. Stein

Keeper of the Seven Keys

Autor

  • Oi, sou Amanda Basso, jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi, viajante por natureza, amo contar histórias - mesmo as que eu não deveria contar… Somei a paixão por criar, ao fanatismo por uma certa Donzela de Ferro e fiz o Maiden Chest, podcast focado na história e bootlegs do Iron Maiden, ah, coleciono material deles também! Escrevo pro Headbangers Brasil, Confere Rock e agora aqui… Mãe da Charlotte e da Natalinha, uma gata e uma pombinha que mandam na minha vida!

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