Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

A noite esfriou no Nubank Parque (confesso que ainda estou me acostumando com esse nome), mas o frio não foi suficiente para desanimar os quase 50 mil fãs presentes. Aos poucos, a pista ia enchendo e esquentando, enquanto camisetas pretas e coletes do Iron Maiden dominavam o estádio.
Nas arquibancadas, uma questão movimentava os fãs antes mesmo de o show começar: será que os lugares marcados seriam respeitados? Com a ajuda da fiscalização, aparentemente não houve incidentes. Ainda assim, fica a dúvida se essa determinação vai funcionar em eventos futuros. Ouvi relatos de famílias que não conseguiram comprar ingressos em assentos próximos e estavam preocupadas com a possibilidade de não conseguirem assistir ao show juntas. Um detalhe que merece atenção da organização.
Mas vamos ao que realmente interessa: estávamos ali para celebrar 50 anos de Iron Maiden!
ALTER BRIDGE: UMA ABERTURA DE PESO
Antes de Eddie assumir o protagonismo, o Alter Bridge mostrou que não estava ali apenas para cumprir tabela. Durante a noite, ouvi de vários fãs que parte da motivação para estar no estádio também era assistir à banda de Myles Kennedy e Mark Tremonti. E isso diz muito sobre o tamanho que o grupo conquistou.
A apresentação foi excelente, com todo o peso, a técnica e a precisão que seus integrantes possuem. As guitarras de Tremonti, a presença de Myles e a execução segura da banda mostraram que o Alter Bridge merece há tempos um show solo pelo Brasil. Já faz alguns anos desde sua última passagem por aqui, e está na hora de resolvermos essa pendência!
Confesso que este que vos escreve é fã de Creed, mas preciso admitir: o Alter Bridge está me ganhando!
Curiosidade romântica: Na apresentação do Alter Bridge de domingo teve espaço para romance, com direito a pedido de casamento durante a apresentação. Afinal, o rock também une corações!
DOCTOR DOCTOR: QUANDO O RITUAL COMEÇA
Quando toca “Doctor Doctor”, do UFO, o fã de Iron Maiden já sabe que algo especial está prestes a acontecer. É quase um aviso: prepare-se, porque o Maiden está chegando! Na sequência, “The Ides of March” prepara o terreno para a viagem musical que está por vir.
Mas, quando os primeiros acordes de “Murders in the Rue Morgue” surgem, começa efetivamente a celebração de cinco décadas de história.
A escolha do repertório passeia por diferentes fases da banda, com destaque para os primeiros nove álbuns. É uma decisão acertada para uma turnê comemorativa de 50 anos. Em vez de tentar agradar a todos com uma seleção previsível de sucessos, o Maiden recupera músicas que ajudam a contar sua trajetória.
Com “Wrathchild” e “Killers”, a banda mergulha ainda mais em sua fase inicial. É interessante revisitar esse material e lembrar de como o Iron Maiden construiu uma identidade própria desde os primeiros anos, com velocidade, riffs marcantes e aquela sonoridade que ajudaria a definir o heavy metal britânico.
É também nesse momento que vale destacar uma das figuras mais particulares do palco: Janick Gers. Sua performance apenas com a guitarra já seria suficiente para impressionar, mas o que realmente chama a atenção é sua movimentação. Este senhor é um show à parte!
O homem gira a guitarra no pescoço, pula, dança de maneira completamente desengonçada e parece não ter a menor intenção de ficar parado. Aos 69 anos, demonstra uma jovialidade impressionante. Uma figura!
A sequência com “Phantom of the Opera” reforça a dimensão musical do repertório. Uma composição que exige bastante dos instrumentistas e mostra o lado mais elaborado da primeira fase da banda.
A banda inteira, como de costume, funciona muito bem. Mas também tivemos uma novidade importante na formação.
Simon Dawson assumiu a bateria nas turnês após a aposentadoria de Nicko McBrain dos palcos, anunciada em dezembro de 2024, justamente depois de sua última apresentação com o Iron Maiden, que aconteceu aqui mesmo, no antigo Allianz Parque.
Simon sustentou muito bem a banda e mostrou competência para encarar um repertório tão exigente. Mas imagino que, para muitos fãs, a apresentação tenha soado um pouco mais arrastada. Afinal, a saudade de Nicko ainda pesa. E pesa mesmo! Não é fácil substituir uma lenda que ajudou a construir a identidade musical do Maiden durante tantas décadas.
Em “The Number of the Beast”, chegamos a um daqueles momentos em que o público reconhece imediatamente um dos maiores hinos da história do heavy metal. A música dispensa apresentações e continua sendo uma das marcas registradas da banda.
Mas o repertório ainda reservaria algumas escolhas especialmente interessantes. “Infinite Dreams” é uma delas. Ao recuperar essa faixa, o Iron Maiden abre espaço para uma dimensão mais progressiva e atmosférica de sua discografia.
E é impossível não destacar Bruce Dickinson nesse percurso, sinceramente, não há muito o que falar. Ou melhor, há muito, mas parece que já dissemos tudo!
O vocalista parece um jovenzinho correndo de um lado para o outro do palco. Sua performance continua acima da média, com um domínio vocal impressionante. É, sem dúvida, um dos maiores vocalistas de sua geração e continua sendo uma referência para quem acompanha o heavy metal.
Em “Powerslave”, a exigência vocal e a construção dramática da música dão ainda mais espaço para Bruce demonstrar suas qualidades como intérprete.
Sempre muito simpático com o público, ainda encontrou tempo para brincar com a história da água no cantil. Garantiu que ali só havia água, como já havia feito no domingo, e até ameaçou demitir o roadie responsável pelo abastecimento. Também fez questão de elogiar o Brasil e a América do Sul.
Não aparecendo com sinalizador na frente dele esta tudo certo! A produção havia pedido para que os fãs não levassem esses artefatos, principalmente porque a fumaça pode prejudicar a voz de Bruce, que enfrentou um câncer de língua em 2015.
Na maior parte da apresentação, o pedido foi respeitado. Apenas um sinalizador distante foi aceso durante o show. A preocupação não é exagero: na passagem pelo Peru, fãs acenderam sinalizadores e, mesmo depois de uma bronca pública do vocalista, continuaram com a prática. Bruce acabou precisando cantar dos bastidores.
A sequência com “2 Minutes to Midnight” mantém o estádio em movimento e resgata outro clássico indispensável da discografia. Já “Rime of the Ancient Mariner” mostra novamente o lado mais épico e progressivo do Iron Maiden, com uma construção musical que exige bastante de todos os integrantes.
Produção de Palco
Aqui também vale uma observação sobre a produção visual da turnê. Confesso que sinto falta dos infláveis!
Entendo que os cenários físicos tradicionais exigem uma logística gigantesca, com transporte, montagem, inflação e substituição de estruturas entre as músicas. As telas digitais e projeções permitem mudanças instantâneas de ambiente e oferecem possibilidades visuais muito maiores. Mas talvez eu seja um purista!
Apesar de sentir falta daquela característica teatral dos antigos shows, preciso reconhecer que algumas imagens desta turnê ficaram espetaculares. Em “Hallowed Be Thy Name”, por exemplo, a sequência visual de Bruce fugindo da morte, caminhando em direção à forca, até que a estrutura se rompe e ele surge novamente no palco, é simplesmente sensacional.
É uma construção teatral que combina perfeitamente com a música.
Talvez a união dos efeitos digitais com os antigos elementos físicos me agradasse ainda mais. Mas quem sou eu perto da grandeza dessa banda histórica? Independentemente da preferência, o resultado continua sendo espetacular. A fumaça e a pirotecnia também ajudam a completar a ambientação.
Depois de toda essa construção musical e visual, chega a vez de “Run to the Hills”, outro clássico que faz parte do DNA do Iron Maiden. É impressionante como músicas lançadas há tantas décadas continuam encontrando espaço em uma apresentação para um público que reúne diferentes gerações.
E então vem “Seventh Son of a Seventh Son”. Aqui, Bruce demonstra por alguns segundos toda a potência e extensão de sua voz. É daqueles momentos em que você simplesmente para para observar. Uma composição que exige bastante do vocalista e que ajuda a explicar por que ele continua sendo considerado um dos grandes nomes de sua geração. A banda inteira parece funcionar como uma máquina muito bem ajustada, mesmo com o 50 anos de estrada nas costas e um repertório tão exigente.
Na sequência, “The Trooper” transforma o estádio em uma grande celebração. Foi um dos momentos mais bonitos da noite, com Bruce trazendo a bandeira do Brasil para o palco.
A impressão que eu tive, foi a de que o público estava mais animado do que na apresentação de 2024 em São Paulo. É claro que existe uma questão de perspectiva: no último show, assisti da cadeira inferior do, finado, Allianz Parque; desta vez, estava na pista premium. A proximidade com o palco e com os outros fãs certamente influenciou essa percepção.
E chegamos a “Hallowed Be Thy Name”, uma das grandes composições da banda e, na minha opinião, um dos pontos altos de toda a apresentação. Além da execução musical, a produção visual já mencionada transforma a música em uma verdadeira narrativa teatral.
Depois, “Iron Maiden” encerra a parte principal do repertório. Uma escolha que carrega o próprio nome da banda e representa muito bem a identidade construída ao longo de cinco décadas.
No bis, a introdução de “Churchill’s Speech” prepara o terreno para mais uma sequência de clássicos. Logo depois, “Aces High” coloca novamente o estádio diante de uma das músicas mais emblemáticas da carreira do grupo.
Mas ainda havia um dos momentos mais aguardados da noite. “Fear of the Dark” cantada por quase 50 mil pessoas é uma daquelas cenas difíceis de descrever. O estádio inteiro parecia fazer parte da música. É impossível não destacar a relação entre o Iron Maiden e o público brasileiro. São décadas de história, e essa conexão continua muito viva.
Depois de uma sequência de clássicos, o encerramento com “Wasted Years” foi simplesmente perfeito.
Uma das músicas mais icônicas da banda, com uma letra que parece ainda mais significativa quando estamos diante de uma celebração de cinco décadas de carreira. É aquele tipo de composição que faz você olhar para trás, lembrar de tudo o que já viveu ao som do Maiden e, ao mesmo tempo, querer que a história continue.
Bruce ainda deixou uma promessa de retorno. E acredito que não teremos de esperar tanto para vê-los novamente por aqui.
Ao final, “Always Look on the Bright Side of Life”, do Monty Python, acompanha a saída do público. E lá vamos nós, deixando o estádio com aquela mistura de êxtase e tristeza pelo fim de um momento que ficará guardado na memória.
O Iron Maiden celebrou seus 50 anos mostrando que ainda tem muito a oferecer. Simon Dawson assumiu uma responsabilidade gigantesca, Bruce continua impressionando, Janick parece ter descoberto a fonte da juventude e o restante da banda segue funcionando como uma máquina.
Cinquenta anos depois, o Iron Maiden continua fazendo história. E nós, brasileiros, seguimos tendo o privilégio de fazer parte dela.
SETLIST – IRON MAIDEN – TERÇA-FEIRA 27/10/2026
- Murders in the Rue Morgue
- Wrathchild
- Killers
- Phantom of the Opera
- The Number of the Beast
- Infinite Dreams
- Powerslave
- 2 Minutes to Midnight
- Rime of the Ancient Mariner
- Run to the Hills
- Seventh Son of a Seventh Son
- The Trooper
- Hallowed Be Thy Name
- Iron Maiden
- Aces High
- Fear of the Dark
- Wasted Years
SETLIST – ALTER BRIDGE – TERÇA-FEIRA 27/10/2026
- Silent Divide
- Addicted to Pain
- Cry of Achilles
- Fortress
- Ghost of Days Gone By
- Metalingus
- Blackbird
- Rise Today
