Angra no BOA: 30 anos da banda marcados por celebração, emoção e despedidas

Amanda Basso

Oi, sou Amanda Basso, jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi, viajante por natureza, amo contar histórias - mesmo as que eu não deveria contar… Somei a paixão por criar, ao fanatismo por uma certa Donzela de Ferro e fiz o Maiden Chest, podcast focado na história e bootlegs do Iron Maiden, ah, coleciono material deles também! Escrevo pro Headbangers Brasil, Confere Rock e agora aqui… Mãe da Charlotte e da Natalinha, uma gata e uma pombinha que mandam na minha vida!

| Foto: Diego Padilha – MHermesArts |

Com tantas mudanças no lineup do Bangers nesse ano, a entrada do Angra para encerrar o festival, pareceu duvidosa. Não pela qualidade, ou pela legião de fãs fiéis, longe disso, mas pelo que vinha desenrolando de sua própria história. O anúncio da saída do Mago Fabio Lione, todas as rixas, alfinetadas nas redes e desabafos indiretos, mostrou a volatilidade implícita naquele show. Toda a proporção aumentou quando a “Celebração dos 30 anos do Angra” foi trazida à tona. Imagine como seria este espetáculo com todas as suas fases representada por suas vozes, Alírio Netto recebendo o bastão passado pelo Maestro André Matos, fazendo a sua vez dentro do palco, Edu Falaschi trazendo Rebirth e Temple of Shadows de volta e Lione com sua era magistral. O release disso é magnífico de imaginar, se não soubéssemos de grande parte dos desafios para essa comemoração acontecer. Acredito que seja esse o grande desafio dos “controladores de danos”.

| Foto: Marcos Hermes – MHermesArts |

Mas, contrariando todas as possibilidades, o Angra fez um show emocionante, capaz de fazer chorar a mais cética das criaturas. André Matos ainda é um assunto muito doloroso para os fãs, que não se conformam com sua ausência; e ver o Alírio ali, concentrado, dedicado, emocionado com a sua responsabilidade com o legado e com a platéia, não tem descrição… é como ver mágica acontecer!

Um vídeo de introdução contando sua história, com imagens antigas, pessoais, raras e outras oficiais passou nos telões dos dois palcos principais do festival. A emoção tomou conta do Memorial da América Latina. As pessoas tinham a feição de quem não só assistiam sua banda favorita, mas à sua própria história. E isso não é todo mundo que é capaz de causar. A banda entra com Nothing to Say, clássico de 1996, do Holy Land. Essa é a hora em que a formação atual – Rafael Bittencourt, Bruno Valverde, Marcelo Barbosa e Felipe Andreoli – com Alírio Netto no vocal faz a sua estreia. O público explode de alegria, celebrando seus ídolos. Sem muita conversa, Angels Cry surge e a catarse vem junto. Alírio quase não precisa pegar o microfone. O Hot Stage abaixa as suas luzes a ponto de existir apenas uma penumbra e o novato saiu do palco para dar lugar ao Mago Fabio Lione.

Lione entrou com a frieza de quem não tem sua importância reconhecida, mas com a alma de quem se doou para os fãs e faria isso uma vez mais. Ele não interagiu com a banda, somente com o público. Deu sua aula na passarela montada como extensão do palco. Sua participação foi curta, embora marcante: Tide of Changes, do álbum de 2023, Cycles of Pain e a clássica Lisbon, presente em Fireworks, de 1998. Com o anúncio de que o show seria dividido em 3 atos, deu-se a entender que em quase 3 horas, o Angra percorreria sua carreira em partes iguais, ledo engano. Claro que não temos notícias maiores sobre o planejamento inicial, às vezes essa era ideia e só não deu certo. Fato é que o fã que esperou ver mais do Mago no palco, mais de Secret Garden, Ømni e o próprio Cycles of Pain, que figurou em apenas dois momentos, caiu do cavalo! A introdução de Vida Seca, também do último álbum, começa e muitos olhos marejados podem ser notados na plateia. Música escrita em parceria com o cantor Lenine, Vida Seca traz a dureza do sertão como metáfora para as agruras superadas da vida. Fabio tem a emoção na voz, que interpretação… a facilidade de quem nasceu com um talento invejável e não faz o menor esforço para a nota mais complicada de alcançar.

| Foto: Diego Padilha – MHermesArts |

Lione sai do palco como num último ato de vida, como na música de Frank Sinatra, My Way “And now the end is near so I face the final curtain”, onde o artista encara o fim da jornada, com o fechamento final das cortinas. Para quebrar esse clima melancólico de despedida, Alírio Netto, ao piano, dedica Wuthering Heights a André Matos. Emocionante, cativante e inesquecível. Acredito que todos estavam tão atônitos com todo o andamento do espetáculo, que ignoraram as pequenas falhas de vocal, ou em todo o incômodo bastidor. Sim, todos estavam ali para celebrar, e de uma forma ou de outra, isso aconteceu. Carolina IV, clássico absoluto do Holy Land, de 1996, começa com certa incredulidade, pois antes disso, ela estava fora do set desde 2018. Olhares surpresos e sorrisos inconscientes foram o que presenciei durante sua execução. Olhares de quem sente a música como trilha sonora de parte de sua própria vida. A música termina, o público grita, a banda vem ao centro da passarela para agradecer, saem do palco se abraçando, a luz apaga. O silêncio do Hot Stage dá lugar ao coro repetido de “Angra, Angra, Angra!”. O que aconteceria agora? O show estava emocionante até ali… o quão mais seríamos capazes de chorar? E fomos… e choramos!

Até o momento, apreciamos Bruno Valverde, menino monstruoso na bateria, Marcelo Barbosa dando sua aula de virtuosismo, Rafael Bittencourt sendo o bom Capiroto que sempre foi, Felipe Andreoli incrível como sempre e o revezamento entre Alírio Netto e Fabio Lione nos vocais responsáveis pelo tom da emoção. Mas algo esteve sempre presente desde o primeiro instante de palco liberado, ela, a gigantesca bateria do polvo Aquiles Priester. E ali, depois de quase uma hora de show, ela cumpriu com sua função.

| Foto: Marcos Hermes – MHermesArts |

Palco iluminado com diversos tons de azul, imagens de capa e shows da Era Rebirth no telão, In Excelsis nos PA’s e a pose da banda idêntica a abertura do DVD Rebirth Live, de 2002. Estão sob os nossos olhos, Edu Falaschi, o Kiko “tesouro” Loureiro, Rafael Bittencourt, Felipe Andreoli e Aquiles Priester; e aqui um adendo: a Amanda de 14 anos, que amava escrever, amava música, mas não fazia ideia de que trabalharia com isso, foi a esse show gravado em 2001. O gritinho dela aparece por lá, e ali mesmo ela se orgulhou de ter ido ao extinto Via Funchal sozinha pela primeira vez. Ali foi sua primeira experiência de liberdade. Essa Amanda de 14 anos cresceu ouvindo Angra, entre outras coisas, e encontrou em Rebirth o seu aconchego. E, pela forma que a plateia reagiu, esse álbum foi a casa, o ombro, a companhia de muita gente que estava presente.

Já emendada com a introdução clássica, Nova Era explode como uma bala no peito. O som estava alto, muito alto, mas não a voz do Edu, essa estava um pouco abaixo. Mas não importava, cada palavra foi cantada por cada headbanger presente no festival. Eu cantei, como cantei em 2001, todos cantaram! Falaschi poderia apenas ter assistido, se quisesse. Waiting Silence veio em seguida e um “Salve Bangers!”, singelo boa noite do vocalista que já tanto tempo não subia ao palco ao lado de seus antigos colegas. Todo o Memorial da América Latina gritou pelo nome de Edu Falaschi: adolescentes, adultos… todos estavam totalmente envolvidos com a energia da celebração. Esse é o poder sobrenatural da música, ela te leva para lugares, abre gavetas que já tempos você não revisita. Mesmo todos sabendo do imbróglio por trás do “evento Angra”, nada foi levado em consideração e a emoção falou mais alto.

| Foto: Marcos Hermes – MHermesArts |

Refletor forte no piano, mostrando que Tesouro estava lá. O telão mostrava a concentração de um gênio, com um leve sorriso de canto de boca. Millennium Sun apontava como uma esperança, com Falaschi e Loureiro juntos depois de tantos anos. Novamente, se quisesse, Edu não precisaria ter cantado. Depois da introdução ao piano, Kiko foi tocar perto do público, na beirada da passarela; e como sua postura de palco mudou! Esses anos de Megadeth fizeram muito bem a ele.

| Foto: Marcos Hermes – MHermesArts |

Mais uma vez, destaque para a dupla Tesouro – Falaschi: Heroes of Sand, que começa num tapping cristalino e a voz. Lágrimas e mais lágrimas foram derramadas neste momento. Não apenas minhas, mas de muitas pessoas próximas. E quando o telão mostrava os moradores do “Angraverso”, olhos vermelhos, inchados e sempre marejados. Quando o refrão explode, as vozes se tornam mais altas que a bateria do próprio Aquiles Priester! Ego Painted Grey, faixa do controverso Aurora Consurgens, de 2006, também deu o ar da graça.

O clima no palco era muito bom, a sensação de alívio era aparente. O vocalista vem ao centro da passarela e começa a conversar com o festival. E dentro dessa conversa, Edu menciona que uma das músicas da banda furou a bolha e caiu no ouvido de quem curte forró. Foi assim que Bleeding Heart se transformou em Agora Estou Sofrendo, sucesso do grupo de forró Calcinha Preta. Falaschi menciona que as pessoas podem cantar a versão que quiserem, além de pedir para que todos peguem seus celulares e acendam seu flash, para que o tema tenha a noite estrelada que merece. Depois de todo esse momento romântico, Spread Your Fire, single do álbum Temple of Shadows, de 2004, todos os fogos e lança chamas foram ativados. Esse momento foi apocalíptico: tudo tremia, as grades que separavam os setores, as portas da sala de imprensa, os corpos dos presentes…

Então todos os fãs da banda relembram suas aulas de latim de 2001, e repetiram com total conhecimento de causa: “Miserebus sanctus, Peccatoribus hominus, Miserebus sanctus, Peccatoribus hominus, Miserebus sanctus, Domine Deo Sabaoth (Domine)”. Acid Rain começa como um grito de guerra cortante, naquela noite de domingo quente. Definitivamente essa fase é muito querida pelo público, que, com certeza, foi renovado durante a Era Rebirth. E falando nela… um parêntese: antes de continuar com a celebração, Rafael fala um pouco com o público; do quanto aquela reunião tem sido importante e alegre, de como é bom subir ao palco com eles, novamente e mais uma série de elogios e agradecimentos que pode ser sincero, mas naquela altura do campeonato era melhor não mexer tanto com emoções antigas, até porque existe grande chance das pessoas não acreditarem e julgar todo o discurso como demagogia. Para salvar o companheiro dessa situação, Edu, em tom de brincadeira diz: “Agora sem mais falação, Rebirth”. E o hino absoluto desse álbum começa, e é quase como uma sinfonia que embalou a vida, os sonhos e os desejos de todos que estavam ali. Mais uma vez: a música é o mais próximo que chegamos do sobrenatural. Ela nos leva para o inatingível. Ela é a nossa máquina do tempo.

A Era do Renascimento se encerra, com aplausos, gritos e ovações. Coros se formam para exaltar a banda. O palco escuro como a noite, silencioso e barulhento paradoxalmente ligados a sensação de que tudo havia acabado tomavam conta, até que o telão acende como num enorme susto. André Matos chegava para participar da festa. Chegou através de imagens e um áudio dele cantando Silence And Distance. O Maestro parecia distante, em seu piano nostálgico apoiado em algum lugar do firmamento, até que ele chega ao Hot Stage quando Bruno Valverde o acompanha na bateria, junto com o restante da banda. A presença de André Matos era tão forte e tão grandiosa, que era como tê-lo, de fato, de volta, entre nós. “Ele deveria estar aqui”, foi o que eu ouvi e o que eu falei também. Sim, ele deveria e esteve! Rafael Bittencourt grita no microfone: “André Matos!” e as palmas se eternizam. O Maestro volta para o seu palácio suspenso, de onde assiste nosso cotidiano, sorrindo por nossas tentativas e se orgulhando de nossos resultados. Palmas, gritos, choros… o sobrenatural esteve entre nós, e não era apenas a música. Late Redemption começa com destaque sobrehumano ao octopus Aquiles Priester.

Todos saíram do palco, que mais uma vez foi atingido pela escuridão tenebrosa. Plateia ofegante, que ainda não havia se recuperado da presença do Maestro no festival. A verdade é que imaginávamos que uma homenagem seria feita, mas não imaginávamos que estaríamos tão envolvidos na magia do show, a ponto de um vídeo ser tão imersivo. Sei que parece um exagero, mas isso me lembrou aquela passagem bíblica Mateus 18:30 – “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles” – onde Jesus deixa claro que não precisa de prédios, apenas de pessoas que falem em nome dele, sobre os reais ensinamentos dele. E eu peço desculpas por essa citação a quem não acredita, ou não aprecia, mas a frase me pareceu pertinente, já que André Matos marcou sua presença, depois de tantos falarem em nome dele.

| Foto: Marcos Hermes – MHermesArts |

A luz se fez novamente e todas as gerações de Angra estavam no palco. Rafael Bittencourt, Bruno Valverde, Marcelo Barbosa, Felipe Andreoli, Kiko Loureiro, Aquiles Priester, Alírio Netto, Edu Falaschi e Fabio Lione vieram ao centro do palco, para agradecer enquanto Unfinished Allegro tocava. Para além da emoção de ver os presentes, o fã sabia o que esperar, afinal, essa é a introdução oficial de Carry On. E ela veio em grande estilo, digna de um grand finale: duas baterias, 3 guitarristas, o baixista e 3 gerações de grandes vocalistas. Todos cantariam Carry On, todos assinariam o final (e o começo) de sua história. Mais fogos, mais chamas, mais emoção.

Todos agradeceram, fizeram a típica foto com o público atrás… e foram seguir suas vidas com a sensação de dever cumprido. O Mago fez seu último ato com a banda naquele dia; que honra para todos, participar desse momento tão marcante.

Angra, deusa tupí-guaraní do fogo, que protege a tribo e seus filhos; praia exuberante; usina nuclear; banda brasileira. A origem do nome é controversa, abrange a proteção, a beleza e o caos, por que os portadores desse nome seriam diferentes? O Angra faz história há mais de 30 anos, mostrando talento, amor e caos simultaneamente; com o renascimento da banda, toda uma geração cresceu e com sua maturidade, superação de seus ciclos dolorosos, celebramos sua jornada. Por mais que os bastidores tenham se tornado notícia tanto quanto o trabalho incrível desses meninos (porque eles sempre serão os meninos que tocaram na Rede Mulher em 1994), seu legado segue para o infinito.

| Foto: Diego Padilha – MHermesArts |

Setlist Angra no Bangers Open Air:

Act I: Netto, Lione, Bittencourt, Barbosa, Andreoli and Valverde
35th Anniversary Intro
Nothing to Say
Angels Cry
Tide of Changes – Part I
Tide of Changes – Part II
Lisbon
Vida seca
Wuthering Heights
Carolina IV

Act II: Falaschi, Bittencourt, Loureiro, Andreoli and Priester
In Excelsis
Nova Era
Waiting Silence
Millennium Sun
Heroes of Sand
Ego Painted Grey
Bleeding Heart
Spread Your Fire
Acid Rain
Rebirth

Act III:
Silence and Distance
Silence and Distance
Late Redemption
Unfinished Allegro
Carry On
Gate XIII (PA’s)

Autor

  • Oi, sou Amanda Basso, jornalista formada pela Universidade Anhembi Morumbi, viajante por natureza, amo contar histórias - mesmo as que eu não deveria contar… Somei a paixão por criar, ao fanatismo por uma certa Donzela de Ferro e fiz o Maiden Chest, podcast focado na história e bootlegs do Iron Maiden, ah, coleciono material deles também! Escrevo pro Headbangers Brasil, Confere Rock e agora aqui… Mãe da Charlotte e da Natalinha, uma gata e uma pombinha que mandam na minha vida!

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