Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

Crédito: _jmiguelr_
A banda paulistana Strigah estreia com o álbum Zoetia, que chega ao
streaming pela Coffinjoe Records e marca um momento de consolidação com uma
sonoridade que passa pelo metal moderno, prog metal, industrial e
experimental.
Ouça Zoetia aqui:
O título parte de um neologismo criado pela própria banda. Zoetia une zoe,
vida, e goetia, feitiço. A ideia de “feitiço da vida” orienta um álbum
construído a partir da tensão entre revolta contra a cultura moderna,
defesa da natureza e busca por um território simbólico em que vida, corpo e
espiritualidade se encontrem.
A formação da Strigah tem Kaio Felipe no vocal, Samanta Tica no baixo,
Eleonardo de Paula na bateria e Matheus Figueredo na guitarra.
A própria lógica
A sonoridade do disco trabalha com groove, polirritmia, quebras de tempo e
estruturas pouco previsíveis. Ao mesmo tempo, o álbum abre espaço para
passagens melódicas, vozes ecoadas, efeitos de profundidade e atmosferas
que ampliam o peso das composições.
A Strigah descreve o trabalho como uma obra voltada a quem procura música
diferente, feita a partir de elementos reconhecíveis do metal, mas
organizada por uma lógica própria.
As letras de Zoetia passam por crítica ambiental, anticolonialismo,
violência urbana, alienação digital, colapso da vida moderna e referências
místicas. O álbum cita lideranças dos povos originários, como Ailton Krenak
e Davi Kopenawa, e também percorre imagens ligadas ao gnosticismo, à
bruxaria tradicional e à cabala judaica.
Tratado sobre ambientes
A banda define o disco como um tratado sobre ambientes: o ambiente natural
ameaçado, a cidade hostil, o espaço virtual, a dimensão interna do sujeito
e o lugar espiritual de conflito e libertação.
Em “A propriedade é roubo”, a Strigah parte da relação entre terra,
exploração e destruição ambiental. A letra menciona território tomado,
mineração, latifúndio e memória de defensores da floresta, como Bruno
Pereira, Dom Phillips e Dorothy Stang. Em “Espírito da cidade”, o álbum se
desloca para o ambiente urbano, com imagens de repressão, polícia, gás
lacrimogêneo, controle da vida e violência de classe.
“Xamanismo urbano” aprofunda a leitura anticolonial do disco. A faixa trata
a alienação moderna como afastamento da natureza e da ancestralidade,
enquanto associa agronegócio, fogo, veneno, genocídio indígena e destruição
da Amazônia. Já “Maldito Demiurgo!” leva o repertório simbólico para uma
reflexão sobre ego, desejo, divisão interna e falsa ideia de paraíso.
O disco também aborda a relação entre humanidade e destruição dos seres não
humanos. Em “Extinção humana voluntária”, a banda usa imagens de
matadouros, animais presos, experimentos e exploração para construir uma
das faixas mais diretas do álbum.
“Florestas digitais” desloca a crítica para a vida mediada por máquinas,
redes e avatares, em uma leitura sobre corpos suspensos, perda de vínculo e
esgotamento do tempo.
Zoetia amplia seu repertório temático com músicas sobre dimensão
espiritual. “Memória do mar” trabalha ideias de repetição, retorno,
reencarnação e continuidade da vida. “Eu sou Tetsuo” traz imagens de
excesso, dissociação, violência urbana e transformação corporal, em diálogo
com uma imagética de colapso e mutação.
A faixa instrumental “O voo do Simorgh” faz referência ao pássaro
mitológico persa que, segundo a tradição, constrói seu ninho no topo da
árvore da vida. No álbum, ela aparece antes de “A quebra dos vasos”, faixa
ligada à cabala judaica, ao Tikkun e à ideia de reparação do cosmos.
Afirmação artística
Para a Strigah, Zoetia representa uma etapa de afirmação artística. O álbum
reúne agressividade política, inquietação filosófica e uma pesquisa sonora
voltada à construção de uma identidade própria.
Entre as referências citadas pela banda estão Deafkids, Sodade, Última
Theoria, Haru e a Corja e Bebê Feio, no Brasil, além de Fear Factory,
Meshuggah, Deftones, Northlane, Brujeria e Five Pointe O no campo
internacional.
Produção e próximos passos
Zoetia tem mixagem e masterização de Yukio Hara, arte de capa de Jennifer
Erny, diagramação e arte final de Luiz Alcamim e fotografia da banda por
Chev. A produção e pós-produção dos clipes ficam a cargo da RageBox Prod.
Após o lançamento do álbum, a Strigah fará um show de apresentação de
Zoetia no Hot Pub, em Santo André. A apresentação será gravada e dará
origem a um clipe previsto para o
