Yngwie Malmsteen transforma o Monsters of Rock 2026 em vitrine de virtuosismo absoluto no Allianz Parque

Crédito: Ricardo Matsukawa

Texto: Fernanda Tavella / Revisão : Flávio Benelli

Havia uma expectativa curiosa pairando sobre o Monsters of Rock 2026 naquele fim de tarde no Allianz Parque. Em um line-up que transitava entre o hard rock clássico e o mainstream de nomes como Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Dirty Honey e Halestorm, a presença de Yngwie Malmsteen funcionava quase como um desvio conceitual — um enclave de virtuosismo extremo em meio a refrões acessíveis. O público sabia: não era um show para cantar junto, era para assistir.

Crédito: Ricardo Matsukawa

O impacto visual veio antes da primeira nota. Um paredão de amplificadores Marshall erguido como um altar deixou claro que ali não haveria concessões. Quando “Rising Force” abriu o set, Malmsteen não entrou — ele tomou o palco. Sua postura continua teatral, quase caricata em alguns momentos, mas ainda eficaz: capas imaginárias ao vento, poses congeladas entre uma sequência de arpejos e outra, guitarras trocadas como extensões descartáveis de um fluxo criativo ininterrupto.

Tecnicamente, o que se viu foi um tipo de execução que permanece raro mesmo décadas após o auge do neoclássico. Faixas como “Top Down, Foot Down” e “No Rest for the Wicked” soaram mais agressivas ao vivo, menos polidas que em estúdio, mas também mais perigosas. Há uma aspereza controlada ali — como se cada nota estivesse à beira de escapar do controle, sem nunca realmente sair do trilho.

Crédito: Ricardo Matsukawa

O momento central do set, no entanto, veio no medley que costurou “Concerto #4”, “Far Beyond the Sun” e até um trecho inesperado de “Bohemian Rhapsody”. É nesse tipo de escolha que se percebe o estágio atual da carreira de Malmsteen: menos preocupado em provar algo e mais interessado em reafirmar seu próprio idioma. Ele não dialoga com tendências; ele orbita em torno de si mesmo.

Nem tudo foi impecável. Houve tensão visível no palco quando o guitarrista demonstrou irritação com o som, gesticulando para a equipe técnica. Em outro momento, uma corda arrebentada interrompeu brevemente a execução — mas, no contexto Malmsteen, isso vira parte do espetáculo. A troca de guitarra foi instantânea, e o solo seguinte veio ainda mais agressivo, como se a falha tivesse alimentado a performance.

A banda de apoio cumpriu seu papel com eficiência quase invisível. Estavam ali para sustentar, não para dividir protagonismo — e isso fica evidente na mixagem, que privilegia a guitarra de forma quase absoluta.

Clássicos como “Trilogy Suite Op: 5”, “Black Star” e “I’ll See the Light Tonight” funcionaram como lembretes de que sua obra não envelheceu — ela simplesmente ficou fora de moda para quem não acompanha técnica instrumental. Para quem acompanha, no entanto, continua sendo um parâmetro.

Crédito: Ricardo Matsukawa

​A técnica dele é tão transcendental que, mesmo sem se ouvir direito e com cordas estourando, ele entregou solos com uma precisão cirúrgica. Ele deu o espetáculo que o povo queria: jogou a guitarra para o alto, fez as poses clássicas e chegou ao ápice de tocar com os dentes, extraindo notas perfeitas de uma forma que só um gênio consegue.

Foram 60 minutos de pura genialidade, onde clássicos como “Far Beyond The Sun” e “Black Star” reafirmaram que Malmsteen não é apenas um músico, é uma força da natureza. Ver isso em solo brasileiro foi, sem dúvida, um dos pontos altos da minha vida de fã.

Setlist do show de Yngwie Malmsteen no Monsters of Rock 2026, no Allianz Parque:

1. Rising Force

2. Top Down, Foot Down

3. No Rest for the Wicked

4. Soldier

5. Into Valhalla

6. Baroque and Roll

7. Relentless Fury

8. Now Your Ships Are Burned

9. Wolves at the Door

10. Concerto #4 / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody

11. Fire and Ice

12. Evil Eye

13. Smoke on the Water (Deep Purple cover)

14. Trilogy Suite Op: 5

15. Overture

16. Badinerie / Black Star

17. I’ll See the Light Tonight

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