Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

Pouco antes da primeira nota, o Allianz Parque parecia dividido entre a exaustão e a expectativa. A chuva que castigou o público durante o set energético do Extreme ainda deixava rastros no estádio, mas havia uma sensação clara de que algo maior estava por vir. Quando o Monsters of Rock 2026 finalmente abriu espaço para o Lynyrd Skynyrd, já na condição de ser um dos headliners, o clima mudou — não por catarse imediata, mas por respeito acumulado.
A banda entrou com “Workin’ for MCA”, uma escolha que diz muito sobre o momento atual do grupo: menos preocupados em provar relevância e mais interessados em reafirmar legado. Em 2026, o Lynyrd Skynyrd é uma instituição itinerante do southern rock, carregando consigo não apenas um repertório clássico, mas a responsabilidade de reinterpretá-lo sem seus principais arquitetos. E, ainda assim, há dignidade nessa reconstrução.
A presença de palco gira em torno da figura sempre acessível de Johnny Van Zant, que alterna entre mestre de cerimônias e guardião da memória da banda, sua simpatia ganha o público por onde passa. Sua voz não tenta competir com as gravações originais, mas encontra um ponto de equilíbrio honesto, sustentado por uma banda de apoio tecnicamente sólida. As guitarras, por outro lado, continuam sendo o verdadeiro motor: densas, bem definidas e, em momentos como “That Smell” e “Gimme Back My Bullets”, surpreendentemente fiéis ao peso das versões de estúdio.
O setlist percorre a discografia como um mapa afetivo. “Tuesday’s Gone”, dedicada a Gary Rossington, foi um dos pontos mais delicados da noite — não exatamente pela execução, mas pelo subtexto. Já “Simple Man” transformou o estádio em um coro coletivo, impulsionado pela aparição da bandeira brasileira no telão, um recurso sempre eficaz.
A química entre os músicos — muitos deles já veteranos na missão de manter esse repertório vivo — é visível com tantos anos de carreira.
Há também espaço para gestos simbólicos. Em “I Need You”, dedicada às mulheres, Van Zant reforça sua conexão com o público, conversando entre as músicas e agradecendo constantemente — inclusive mencionando a honra de dividir o line-up com nomes como Guns N’ Roses, a principal atração da noite. Esse tipo de interação, longe de soar ensaiado, ajuda a humanizar uma banda que poderia facilmente se esconder atrás de sua própria história.
Mas é em “Free Bird” que tudo converge. O surgimento de um pássaro dourado sobre o piano já antecipava o desfecho, mas o impacto veio com o solo — ainda um dos momentos mais emblemáticos da história do rock ao vivo.
Enquanto as telas exibiam velas e os nomes dos integrantes falecidos, a música deixou de ser apenas performance para se tornar ritual. Não há como competir com o peso simbólico desse momento — e talvez nem seja essa a intenção.
No contexto de uma turnê sul-americana que passou por Curitiba, Rio de Janeiro e Porto Alegre, o show em São Paulo funcionou como uma síntese: um repertório que não falha.
No fim, o Lynyrd Skynyrd não tentou reinventar sua história no Allianz Parque — apenas a executou com precisão suficiente para lembrar que, às vezes, preservar já é um ato grandioso.
Setlist — Lynyrd Skynyrd (Monsters of Rock 2026, São Paulo)
1. Workin’ for MCA
2. What’s Your Name
3. That Smell
4. I Need You
5. Gimme Back My Bullets
6. Saturday Night Special7. Down South Jukin’
8. Still Unbroken
9. The Needle and the Spoon
10. Tuesday’s Gone
11. Simple Man
12. Gimme Three Steps
13. Call Me the Breeze
14. Sweet Home Alabama
15. Free Bird
