Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.
Depois de meses cercado por incertezas sobre sua realização, o Knotfest
Brasil finalmente voltou ao Allianz Parque no dia 19 de outubro para sua
segunda edição. A ameaça de fortes chuvas em São Paulo alimentou o receio
de que o festival pudesse sofrer interrupções, mas o clima colaborou e o
público compareceu em peso desde a abertura dos portões. Mais do que reunir
grandes nomes do metal mundial, o primeiro dia serviu para mostrar uma
organização muito mais madura: horários cumpridos rigorosamente, excelente
qualidade de som e uma programação capaz de equilibrar veteranos, novas
apostas e representantes da cena brasileira.
O formato escolhido para esta edição, entretanto, dividiu opiniões.
Enquanto as atrações internacionais ocuparam o palco principal com
apresentações de aproximadamente uma hora, as bandas nacionais ficaram
concentradas em um palco secundário menor, com sets entre 20 e 30 minutos.
A decisão permitiu uma programação dinâmica, mas também reduziu o espaço
que muitos artistas brasileiros mereciam.
Bandas brasileiras abriram os trabalhos
Coube ao Ego Kill Talent dar início ao festival exatamente às 12h30, como
prometido pela organização. A pontualidade impressionou e se manteve
durante praticamente todo o dia. Mesmo em um palco menor, o grupo mostrou
por que continua sendo um dos principais nomes brasileiros do rock pesado
contemporâneo. O formato de power trio funcionou muito bem ao vivo,
entregando um show pesado, direto e extremamente entrosado.
Na sequência, Kryour, Eminence e Project46 mantiveram o nível da
programação nacional. Com tempo reduzido, nenhuma delas teve oportunidade
para desenvolver apresentações mais longas, mas todas conseguiram aquecer o
público enquanto o gramado do Allianz começava a ganhar forma para as
atrações internacionais.
O encerramento do palco secundário ficou por conta do Ratos de Porão. O
veterano grupo paulistano enfrentou um problema inesperado: praticamente
toda a apresentação aconteceu sem iluminação adequada. Durante as primeiras
músicas, a banda permaneceu quase completamente no escuro até que apenas
uma luz fosse acionada. Posteriormente, João Gordo esclareceu que se
tratava de uma falha técnica, e não de qualquer tipo de manifestação
planejada. Mesmo diante do contratempo, o grupo fez exatamente o que sempre
fez ao longo de quatro décadas de carreira: ignorou as circunstâncias e
entregou um show intenso.
Orbit Culture foi a primeira grande surpresa
Poucas bandas aproveitaram tão bem seu horário quanto o Orbit Culture.
Escalados ainda no início da tarde, os suecos transformaram um dos momentos
mais ingratos do festival em uma das apresentações mais elogiadas do dia.
Misturando groove, death metal melódico e uma execução praticamente
impecável, a banda conquistou rapidamente um público que, em muitos casos,
sequer conhecia seu trabalho. A impressão deixada foi clara: o Orbit
Culture já possui repertório e presença de palco suficientes para ocupar
posições muito mais nobres em futuros festivais.
DragonForce transformou nostalgia em espetáculo
Mesmo para quem nunca foi fã de power metal, era impossível ignorar a
reação do público durante o show do DragonForce.
A banda britânica segue carregando a fama construída nos anos 2000,
impulsionada pela popularização de “Through the Fire and Flames” no
universo dos videogames. Mas reduzir o grupo apenas a isso seria injusto. O
que se viu no Allianz foi uma apresentação extremamente competente, marcada
por solos executados com precisão absurda, sincronização impecável entre os
músicos e uma produção visual eficiente, com efeitos de fogo utilizados na
medida certa.
Talvez o DragonForce nunca convença quem não aprecia o gênero, mas é
impossível negar que entregou exatamente aquilo que seus fãs esperavam.
Meshuggah ofereceu uma experiência, não apenas um show
Se houve uma banda capaz de elevar o nível artístico do festival logo no
primeiro dia, essa banda foi o Meshuggah.
Os suecos atravessam uma fase em que já não precisam provar absolutamente
nada para ninguém. Seu legado dentro do metal extremo é inquestionável, e
cada apresentação reforça por que tantas bandas modernas beberam
diretamente de sua fonte.
Mesmo enfrentando um problema técnico no microfone durante praticamente
toda a primeira música, o grupo rapidamente retomou o controle da situação
e transformou o Allianz Parque em uma experiência quase hipnótica. O peso
absurdo das guitarras, a precisão cirúrgica da bateria e a execução
impecável fizeram da apresentação algo que ultrapassou o conceito
tradicional de show.
Foi uma verdadeira aula de musicalidade extrema.
Mudvayne finalmente chegou ao Brasil… mas ficou a sensação de que faltou
algo
Poucas bandas carregavam tanta expectativa quanto o Mudvayne.
Após mais de vinte anos de espera, os norte-americanos finalmente estrearam
em solo brasileiro vivendo sua fase de retorno aos palcos. O repertório
trouxe praticamente todos os clássicos esperados pelos fãs, e Chad Gray
demonstrou entusiasmo por finalmente tocar no país.
Ainda assim, ficou uma sensação difícil de explicar.
O show nunca chegou a ser ruim, mas também não alcançou o impacto emocional
esperado. A interação com o público foi discreta, a resposta da plateia
pareceu menos intensa do que em outras apresentações do dia e, apesar da
competência técnica da banda, faltou aquele momento capaz de transformar
uma estreia histórica em algo realmente memorável.
Foi uma boa apresentação, mas a impressão geral era de que havia potencial
para muito mais.
Amon Amarth dividiu opiniões
O Amon Amarth trouxe ao Allianz exatamente aquilo que seus fãs esperavam:
cenografia inspirada na cultura viking, muito fogo, riffs grandiosos e
Johan Hegg comandando o palco com seu habitual carisma.
Visualmente, foi uma das apresentações mais impactantes do sábado.
Por outro lado, a resposta do público pareceu um pouco abaixo da
expectativa em diversos momentos. A tradicional “remada viking” aconteceu e
virou um dos registros mais compartilhados do festival, mas, no restante do
show, parte da plateia pareceu guardar energia para o encerramento da noite.
Ainda assim, o grupo reafirmou por que continua ocupando posição de
destaque dentro do melodic death metal.
Slipknot mostrou que menos pode significar muito mais
Celebrando os 25 anos de seu álbum de estreia, o Slipknot chegou ao Brasil
vivendo um dos momentos mais simbólicos de sua carreira recente. A turnê
atual abandona boa parte da gigantesca estrutura visual construída ao longo
dos anos para resgatar o espírito cru de 1999.
Menos plataformas.
Menos explosões.
Menos efeitos especiais.
Mais música.
A abertura sintetizou perfeitamente essa proposta. Corey Taylor surgiu
envolto por uma iluminação verde intensa, enquanto sua nova máscara
revelava discretamente os olhos iluminados em vermelho. A imagem projetada
no telão era perturbadora e cinematográfica ao mesmo tempo, criando um dos
momentos visuais mais marcantes de toda a noite.
O repertório passeou por diferentes fases da carreira, reunindo clássicos
sem praticamente oferecer respiro ao público. A sensação era de assistir a
uma sucessão ininterrupta de músicas fundamentais da história do Slipknot.
No centro de toda essa engrenagem estava Eloy Casagrande.
Ovacionado diversas vezes pelo público brasileiro, o baterista mostrou
personalidade suficiente para ocupar uma posição que parecia impossível de
substituir. Sua execução foi agressiva, precisa e completamente integrada
ao restante da banda. Curiosamente, Corey Taylor não fez qualquer menção
especial ao fato de Eloy estar tocando pela primeira vez em seu país natal
com o Slipknot — algo que muitos fãs esperavam durante toda a apresentação.
Mesmo com uma produção menor do que a utilizada no primeiro Knotfest
Brasil, a banda entregou um espetáculo ainda mais eficiente. A ausência de
grandes plataformas, elevadores e efeitos pirotécnicos apenas reforçou
aquilo que sempre sustentou o grupo: nove músicos funcionando como uma
máquina perfeitamente sincronizada.
Um festival que começou acertando mais do que errando
O primeiro dia do Knotfest Brasil 2024 mostrou uma organização muito
superior à esperada depois das incertezas que antecederam o evento. A
pontualidade, a qualidade sonora e o nível das atrações internacionais
compensaram problemas como o palco secundário limitado, a falha de
iluminação no show do Ratos de Porão e alguns incidentes técnicos pontuais.
Musicalmente, o saldo foi extremamente positivo.
Meshuggah entregou a apresentação mais impressionante do sábado sob o ponto
de vista técnico. DragonForce transformou nostalgia em diversão. Mudvayne
deixou um leve gosto de “poderia ter sido melhor”. Amon Amarth manteve seu
espetáculo visual intacto.
E o Slipknot fez aquilo que poucas bandas conseguem repetir durante mais de
duas décadas: mostrou que, quando a música fala mais alto do que a
produção, o resultado continua sendo devastador.
Se a primeira noite do Knotfest Brasil 2024 serviu para alguma coisa, foi
para lembrar que o verdadeiro peso de um festival não está na quantidade de
fogo no palco, mas na força das bandas que o ocupam.

