Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

O asfalto do Memorial da América Latina ainda irradiava o calor de um dia quente quando a multidão começou a se comprimir em direção ao palco Hot para ver um dos shows mais pedidos nas redes sociais do Bangers: o Arch Enemy. Mas a saída de Alissa ainda ecoava como uma ferida recente; a ex-vocalista anunciou o seu desligamento da banda em dezembro passado, e a promessa de uma nova vocalista carregava aquele tipo de expectativa que pode facilmente virar desconfiança — o que é muito comum no mundo do metal. E, convenhamos, depois de um In Flames afiado e um Zakk Wylde emocionalmente devastador com sua homenagem a Ozzy Osbourne horas antes, não havia muito espaço para erro.
Em fevereiro, o Arch Enemy anunciou Lauren Hart como sua nova vocalista, marcando o início de uma nova fase para a banda. Nascida nos Estados Unidos e criada na Austrália, a cantora construiu uma trajetória sólida no metal ao longo da última década, ganhando destaque inicialmente com o Once Human, projeto de Logan Mader. Desde então, ampliou sua projeção com turnês internacionais, participações com nomes como Kamelot e colaborações com o DragonForce, além de assumir os vocais do Divine Heresy em 2022. Com experiência de palco e versatilidade, Lauren chega ao Arch Enemy já consolidada como um dos nomes mais promissores da nova geração do gênero. E pronta para sua prova de fogo no Bangers Open Air.
O show
Quando “Yesterday Is Dead and Gone” abriu o set, o Arch Enemy fez o que sabe fazer: entrou sem pedir licença. O som estava alto — alto a ponto de incomodar os vizinhos do Memorial, conforme notícias mais recentes —, mas isso já virou assinatura não oficial do Bangers. Não era uma mixagem que abraça; era uma que empurra. E, ainda assim, funcionou. “The World Is Yours” e “Ravenous” vieram em sequência como um teste de resistência para a nova formação, quase como se a banda estivesse dizendo: “é isso que você conhece, agora veja se ainda acredita”.
Lauren Hart não tentou ser Alissa, e nem assim esperávamos. E foi aí que começou a dar certo. O gutural dela sustentou muito bem, talvez com um peso mais orgânico, mais cru. Em “War Eternal”, ela encontrou o equilíbrio entre respeitar a estrutura e imprimir presença própria. Já em “Dream Stealer”, a banda mostrou seu peso.
O momento mais simbólico veio com “To the Last Breath”, a única representante dessa nova fase no repertório. Era ali que o público precisava comprar a ideia — e, surpreendentemente, comprou. Não pela música em si, que ainda soa como uma extensão segura da identidade da banda, mas pela entrega de Lauren, que parecia menos preocupada em provar algo e mais em simplesmente criar seu espaço. Funcionou.
“Blood Dynasty” e “My Apocalypse” acalmaram um pouco os ânimos, na medida do possível em um show do Arch. Em compensação, “Bury Me an Angel” trouxe aquele senso de legado que o Arch Enemy carrega com naturalidade e solidez.
No meio do set, como já vem se tornando costume nos shows no Brasil, um sinalizador aceso no meio da galera cortou a escuridão com um vermelho quase teatral. Momentos assim, não planejados, combinam com o caos típico de shows de metal, mas lembre-se: levar sinalizador é proibido. De qualquer forma, era uma banda em transição, um público se entregando ao que estava vendo e um festival que cresce a cada edição.
Seguindo, “The Eagle Flies Alone” e “No Gods, No Masters” vieram como reafirmação de identidade, enquanto “I Am Legend/Out for Blood” manteve a agressividade em alta. “Dead Bury Their Dead” e “Snow Bound” deram uma leve respirada — dentro do possível — antes da reta final.
E aí veio “Nemesis”. Sempre ela. Encerrando o set, o tipo de música que dispensa contexto. Aqui, Lauren já estava completamente solta, interagindo mais, sorrindo entre um gutural e outro — algo que, curiosamente, humanizou a performance — e garantindo um fechamento explosivo.

O Arch Enemy não reinventou nada naquela noite. E talvez nem precisasse. O que aconteceu ali foi mais interessante: uma banda veterana, há anos lendo “come to Brazil” em seus comentários, testando seus próprios limites diante de um público aberto a novas possibilidades. Lauren Hart sustentou o peso com uma naturalidade que surpreende. Ainda há ajustes a serem feitos, mas o essencial está ali.
Se existia dúvida sobre o futuro pós-Alissa, essas dúvidas perderam a força. O que se viu no Memorial foi o início de algo que ainda está se formando. E, pelo menos por agora, isso já é suficiente para dizer: a Era Hart começou.

Setlist Arch Enemy no Bangers Open Air
- Yesterday Is Dead and Gone
- The World Is Yours
- Ravenous
- War Eternal
- Dream Stealer
- To the Last Breath
- Blood Dynasty
- My Apocalypse
- Bury Me an Angel
- The Eagle Flies Alone
- No Gods, No Masters
- I Am Legend/Out for Blood
- Dead Bury Their Dead
- Snow Bound
- Nemesis
- Fields of Desolation
