Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

O asfalto do Memorial da América Latina no último sábado não era para amadores. Sob um sol de abril que insistia em ignorar o outono, o Bangers Open Air transmutou-se em uma prova de resistência. Mas, pontualmente às 17h50, o cenário começou a mudar. O sol finalmente começava a baixar por trás dos prédios vizinhos, trazendo um alívio térmico quase espiritual para os fãs que já haviam fritado durante o set do Killswitch Engage. Foi nesse crepúsculo alaranjado que o ar se tornou saturado de uma expectativa densa, quase sólida. Quando os primeiros acordes de “Whole Lotta Sabbath” começaram a vazar pelo P.A., Zakk surgiu mascarado, brincou com os fãs e deixou o palco para logo voltar com sua icônica guitarra — a “Doom Crew Inc.” — e iniciar os trabalhos com “Funeral Bell”.
Já ali, o tom do show foi estabelecido: Wylde soltava a voz e, em momentos estratégicos, apontava para o céu em um gesto de reverência que parecia convocar as entidades do metal. O som estava alto — o tipo de volume que o Bangers transformou em marca registrada.
A técnica de guitarra permanece um fenômeno de força bruta: solos esculpidos com uma agressividade que fazia as cordas parecerem prestes a arrebentar.
Não se pode ignorar, contudo, a estética da seita. Zakk empunhava seu instrumento ostentando o kilt característico, movendo-se pelo palco com a autoridade de um highlander escocês. O curioso era observar a plateia: o kilt deixou de ser um figurino de palco para se tornar o uniforme oficial de alguns fãs espalhados pelo festival.

A setlist não foi uma escolha aleatória de sucessos, mas uma narrativa sobre ausência. Quando os primeiros acordes de “No More Tears”, clássico do saudoso Ozzy, surgiram, não era apenas um cover, era uma evocação para o público cantar junto.
O momento em que o piano tomou o palco para “In This River” é sempre o ponto de inflexão, mas em 2026, com as fotos de Dimebag Darrell e Vinnie Paul no telão, o clichê da homenagem se dissolveu em algo genuinamente doloroso. Vi homens de barba grisalha e coletes de couro evitarem o contato visual, escondendo os olhos marejados atrás de óculos escuros.
Contudo, o golpe de misericórdia veio com a inédita “Ozzy’s Song”. Quase um ano após a partida do Madman, Zakk parecia tocar não para a massa de camisas pretas, mas para o fantasma do mentor. Foi uma música que não buscou o virtuosismo vazio; foi lenta, pesada e carregada de uma melancolia que fez o público — geralmente mais ocupado em garantir o melhor ângulo para o Reels — finalmente baixar os celulares. Por cinco minutos, o festival não foi sobre “experiência de marca”, foi sobre perda.
O encerramento com “Stillborn”, após uma jam instrumental que testou os limites da audição dos presentes, selou o veredito. O BLS entregou um show praticamente perfeito. Com certeza um dos pontos altos do sábado.
Setlist: Black Label Society no Bangers Open Air 2026
1. Funeral Bell
2. Name in Blood
3. Destroy & Conquer
4. A Love Unreal
5. Heart of Darkness
6. No More Tears (Ozzy Osbourne cover)
7. In This River
8. The Blessed Hellride
9. Set You Free
10. Fire It Up
11. Suicide Messiah
12. Ozzy’s Song (Homenagem ao Ozzy Osbourne)
13. Instrumental Jam
14. Stillborn
