Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

O lançamento de “Sempre Não é Todo Dia” reforça o momento criativo intenso de Nanda Moura, que segue consolidando sua identidade dentro do blues rock nacional ao revisitar uma obra de Oswaldo Montenegro e Mongol sob uma perspectiva profundamente pessoal. Mais do que uma simples releitura, a artista propõe uma reconstrução estética e emocional da canção, trazendo à tona sua essência blues com influências diretas do Mississippi e referências que vão de Ry Cooder à sua própria trajetória musical iniciada ainda na infância.
Na entrevista, Nanda revela como a conexão com a obra de Oswaldo Montenegro atravessa sua história desde os primeiros passos nos palcos, além de detalhar o desafio de se afastar da forte identidade do compositor para encontrar sua própria interpretação. A artista também aprofunda o conceito por trás da nova versão, que transforma a narrativa da música em um olhar mais humano e realista — distante da idealização — e explica como essa visão guiou tanto a interpretação vocal quanto a construção do arranjo.
Outro ponto de destaque é o cuidado em equilibrar respeito à obra original com a necessidade de imprimir sua sonoridade, em um processo minucioso de experimentação até atingir a atmosfera desejada. Nanda ainda mergulha na concepção visual do projeto, explorando a relação entre música e artes plásticas, com referências que passam por Cildo Meireles, Salvador Dalí e Edvard Munch, ampliando o significado da obra para além do som.
Nanda também antecipa o que vem pela frente: a conclusão da tríade audiovisual que dará origem ao EP, prometendo uma evolução tanto estética quanto sonora, com uma abordagem mais elétrica e intensa. O resultado é um projeto que se constrói como uma narrativa contínua, onde música, imagem e conceito caminham juntos — e é justamente esse processo, em detalhes, que o leitor pode esperar ao longo da conversa.
1. Como surgiu a ideia de revisitar Oswaldo Montenegro e Mongol em “Sempre Não é Todo Dia”, e o que mais te atraiu nessa composição para transformá-la em blues?
Na verdade, o Oswaldo Montenegro faz parte da minha vida musical desde muito nova. Quando comecei a me apresentar profissionalmente (aos 9 anos de idade), eu cantava Bandolins (música do Oswaldo), era uma musica dificil pra mim na época, complexa pra uma criança. Eu comecei a apreciar as composições muito cedo.
Acontece que essa música é, naturalmente, um Blues. Um Blues mais puxado para a MPB, mas um Blues. E eu quis enfatizar isso puxando ela um pouco mais pro Blues do Mississippi. Daí o porquê de usar o violão ‘resonator’, e o solo dela tem uma pegada um pouco mais ‘Ry Cooder’ também.
2. Você comentou que a maior dificuldade foi não cantar imitando o estilo de Oswaldo Montenegro. Em que momento percebeu que havia encontrado sua própria interpretação da música?
No momento em que eu concluí que tipo de leitura eu queria colocar na minha versão. A visão de uma mulher que acordou num dia difícil, e percebeu a impossibilidade de sustentar uma postura principesca todo dia. Quando eu coloco essa visão, a interpretação fica mais serena, mais condescendente com a própria posição, e consequentemente mais suave no cantar.
Essa abordagem da voz junto com o arranjo que fiz no violão, deram exatamente a cara que eu queria que ela tivesse.
3. A nova versão traz uma atmosfera inspirada no blues do Mississippi, com violão resonator e slide. Como foi o processo de construção desse arranjo para dar uma identidade tão diferente da original?
Antes de tudo, eu queria construir um conjunto arranjo-interpretação que não desagradasse o compositor. Então me preocupei em não “desconfigurar” a identidade original da canção. Mas, ao mesmo tempo, dar uma atmosfera completamente diferente e dentro da minha identidade de sonoridade.
É um jogo de busca, tentativa, faz, ouve, analisa, refaz, ouve de novo, até chegar na atmosfera sonora que se busca. Eu fiquei satisfeita com o resultado e acho que tanto o Blues do Oswaldo Montenegro quanto o Blues do Mississippi estão ali.
4. O vídeo-conceito introduz o vermelho como elemento simbólico e cita a inspiração em Cildo Meireles. Como essa referência artística dialoga com a mensagem da música?
Ótima pergunta. Eu venho viajando nessa junção de música com artes plásticas já tem algum tempo. A primeira vez que abordei essa junção foi com o lançamento de ”Chega!”, música que fiz em parceria com o Nasi e participação do rapper Thaíde, em que a capa era uma releitura do quadro “O Grito”, de Edvard Munch. Depois foi com o lançamento de “Louca”, minha segunda música autoral, que é inclusive a música que inicia essa tríade audiovisual, que virará um EP, com o lançamento da minha próxima música.
Em “Louca”, a estética visual é inteiramente branca, no fundo infinito, no figurino com a camisa-de-força, na maquiagem esbranquiçada, e tudo isso aliado à referência que fiz ao pintor espanhol Salvador Dalí.
“Sempre Não é Todo Dia” traz essa continuação da estética de “Louca”, mas inclui os elementos em vermelho, que, pra mim, representam esse antagonismo à frieza do primeiro clipe. Nesse segundo capítulo, o vermelho traz a vida, o humano, o sentimento. A representação da única coisa que nos diferencia do artificial e do robotizado: é que a gente sangra.
Dentro desse raciocínio, foi inevitável ignorar a estética da obra de Cildo Meireles, “Desvio para o Vermelho”. Faço essa analogia, que vai se completar no próximo capítulo, com o lançamento da terceira música do EP.
5. “Sempre Não é Todo Dia” faz parte de uma tríade audiovisual que culminará no EP. O que o público pode esperar do próximo capítulo dessa narrativa visual e musical?
O próximo capítulo conclui esse percurso que começa no branco absoluto de “Louca”, passa pela presença do vermelho em “Sempre Não é Todo Dia” e culmina numa estética completamente tomada pela cor. A ideia é revelar de forma mais direta essa dimensão humana que atravessa todo o projeto.
Musicalmente, a próxima faixa também amplia esse caminho, com uma sonoridade mais elétrica e pulsante, aproximando ainda mais o blues do território do rock. O EP é composto por esses três momentos,como partes de uma mesma narrativa.
Contato para shows: nandamourablues@gmail.com
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