Bianca Capobianco
Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.

Quando Drown Out foi lançado em 4 de março, ele não chegou envolto em espetáculo. Sem contagem regressiva exagerada. Sem uma campanha superexposta revelando cada próximo passo. Apenas um single denso e deliberado, sustentando-se por conta própria.
Black Coast entendem de timing. E, mais importante, entendem de contenção.
Desde o impacto de Outworld, a banda carrega uma tensão silenciosa, mas determinante: como evoluir sem abandonar aquilo que os tornou reconhecíveis em primeiro lugar? É uma pergunta que atravessa cada riff, cada decisão de produção, cada música que acabou ficando de fora.
E foram muitas.
Durante o processo de composição do novo material, faixas inteiras foram descartadas. Algumas porque se afastavam demais do que soava autenticamente como Black Coast. Outras porque se aproximavam demais de Outworld. A linha entre progressão e repetição é extremamente fina e a banda parece determinada a caminhar exatamente sobre ela.
Essa tensão começa na própria origem de uma música. Às vezes tudo nasce de um riff. Às vezes de um estado emocional. Às vezes da tentativa de entrar na experiência de outro integrante e traduzi-la sonoramente. Não existe fórmula rígida. Uma ideia pode permanecer apenas como uma nota de voz no celular ou evoluir para uma demo estruturada antes mesmo de chegar à sala de ensaio. O que determina sua sobrevivência não é precisão técnica e sim ressonância interna.
Se a evolução é inevitável, a essência precisa permanecer intacta. E é aí que as decisões técnicas da banda se tornam decisões filosóficas.
No estúdio, amplificadores analógicos são inegociáveis para gravações finais e apresentações ao vivo. Ferramentas digitais servem pela conveniência durante a composição e os ensaios, mas o resultado final exige textura orgânica e dinâmica real. Para Black Coast, o silêncio não é ausência, é arquitetura. Sem contraste, o peso perde impacto.
O mesmo princípio vale para as gravações. A perfeição técnica é secundária em relação à autenticidade emocional. Se um take “imperfeito” carrega mais verdade, ele permanece. A execução serve à mensagem e nunca o contrário.
Ainda assim, expandir exige risco. Pela primeira vez, violinos foram incorporados em uma das novas gravações. Não fazia parte do plano inicial. Mas, depois de introduzidos, tornou-se impossível imaginar a música sem eles. Não como ornamentação mas como profundidade narrativa.
No centro da identidade sonora da banda permanece a voz. Ela funciona simultaneamente como arma rítmica, âncora melódica e narradora emocional. Ao redor dela, as guitarras transitam entre precisão técnica e densidade de textura, sustentando o que talvez seja a verdadeira assinatura da banda: intensidade controlada.
Essa intensidade não desaparece fora do palco. Existe nervosismo real antes dos shows; algo que eles admitem abertamente. Mas ele se transforma em adrenalina. As apresentações não são reproduções estéreis do estúdio, nem reinvenções radicais. São extensões mais físicas, mais imediatas, mais voláteis.
O que levanta um dilema artístico contemporâneo: qual é o maior risco, ser ignorado ou ficar preso à própria fórmula?A posição da banda é pragmática. Ser ouvido, mesmo correndo o risco de soar familiar, é melhor do que desaparecer em experimentações que ninguém testemunha. Arte precisa de público.
Essa perspectiva faz de Drown Out mais do que apenas um single isolado. Ele se torna uma declaração de continuidade com expansão. Não ruptura. Não reinvenção pela reinvenção. Crescimento com consciência.
E talvez o contraste mais inesperado esteja fora da música. Por trás do peso e da intensidade estão homens que preferem noites tranquilas, uma bebida quente e descanso cedo. O arquétipo do rockstar ficou para trás.
O que permanece é clareza de propósito.
Black Coast não estão tentando fugir de quem são.
Estão refinando isso deliberadamente.
Antes do lançamento de Drown Out, a banda gringa conversou conosco sobre o processo criativo da banda, o delicado equilíbrio entre evolução e identidade, e os riscos envolvidos em levar o próprio som adiante.
1. Quando uma nova música começa a nascer, o que geralmente vem primeiro: riff, ritmo, conceito lírico ou estado emocional?
Uma pergunta interessante, porque talvez não exista uma única circunstância acontecendo em sequência. Pode ser uma combinação. Por exemplo, um de nós pode estar sentindo algo emocionalmente e isso o motiva a escrever algo, ou eu (Alex) posso ser influenciado pela forma como o Scott está se sentindo ou por algo que ele esteja vivendo, o que me leva a me colocar no lugar dele e criar algo a partir desse exercício. Normalmente tende a começar com um riff. Mas o que decidimos fazer com esse riff é o que realmente importa — ele pode permanecer apenas como uma nota de voz ou vídeo no celular, pode virar uma demo de dois minutos com amp modellers e bateria MIDI programada, ou pode ir direto para a sala de ensaio para ser trabalhado. Não existem regras rígidas, apenas o que parece natural para nós.
2. O significado surge depois que a estrutura instrumental existe ou a emoção já dita a música desde o início?
Uma resposta parecida com a anterior, no sentido de que às vezes uma música
pode carregar dois significados diferentes ao mesmo tempo, ou um pode alimentar
o outro. Escrevemos uma música nova, por exemplo, que instrumentalmente surgiu
de um misto emocional — sentimentos de rejeição e frustração, mas também
catarse, alegria e aceitação. Acho que isso aparece na própria estrutura da música.
Depois que o Charlie escreveu as melodias e as letras, ele trouxe um novo
significado, falando sobre uma força oculta que te puxa para baixo mesmo quando
tudo parece calmo na superfície. Isso não estava na minha cabeça quando
compus, mas acabou harmonizando com a forma como eu estava abordando a
música.
3. Existe um momento interno em que vocês reconhecem coletivamente: “isso soa como Black Coast”?Existe, mas até certo ponto.
Existe, mas até certo ponto. Durante a composição deste novo álbum, muitas
músicas foram descartadas por se afastarem “demais” do que sentimos que é o
nosso som… mas também descartamos músicas por estarem “perto demais” do
que fizemos em Outworld. Sempre precisa haver um passo adiante quando criamos
material novo, mas passos demais e acabamos fugindo completamente da
familiaridade. Honestamente, o que faz Black Coast soar como Black Coast é a voz
do Charlie e a guitarra do Scott. Sem desmerecer o que Alex, Birdy (baixo) e Matty
(bateria) trazem para a banda, é inegável que o Charlie tem uma voz única, com
uma enorme variedade de “vozes” e habilidade absurda. E o Scott consegue unir
técnica de shredding com um trabalho de pedais muito particular, o que torna os
dois verdadeiramente únicos.
4. No estúdio, vocês priorizam impacto físico ou camadas e texturas mais intricadas?
Na verdade, nunca separamos as duas coisas. Por que um álbum não pode ter
ambos? Algumas músicas do novo disco começaram com riffs muito impactantes e
depois abrimos espaço para que camadas mais intricadas surgissem. Outras foram
o contrário — queríamos um riff pesado bem na frente.
5. Os timbres de guitarra são mais analógicos, digitais ou híbridos?
Sempre analógicos. Claro que usamos timbres digitais para ensaiar, compor ou praticar, por pura conveniência. Por exemplo, para gravar demos provavelmente usamos algo como o plug-in Gojira da Neural DSP. Mas na gravação final em estúdio ou nos shows ao vivo: amplificadores analógicos, sempre.
6. O silêncio é tão importante quanto a saturação nos arranjos?
Com certeza. Sem silêncio ou mudanças de dinâmica, você não consegue apreciar o peso que veio antes ou depois. Eu gosto de bandas que são 100% agressivas e pesadas o tempo todo — ótimo para treinar na academia — mas em muitos contextos isso cansa rápido ou perde impacto depois da terceira música do álbum. Momentos de silêncio, mesmo que por um compasso, podem causar um impacto enorme e também funcionar como transições muito elegantes.
7. Vocês já mantiveram takes “imperfeitos” porque tinham mais verdade emocional?
Sim, com certeza! Agora fica para o ouvinte descobrir quais foram esses takes “ruins” que deixamos… quem sabe o álbum inteiro não seja um grande take imperfeito.
8. Qual foi a decisão tecnicamente mais arriscada que vocês tomaram em gravação?
Sem revelar demais, gravamos violinos pela primeira vez em uma música nossa. Não planejávamos isso inicialmente, mas depois de testar ficou impossível imaginar a faixa sem eles. Valeu o risco.
9. Vocais são arma rítmica, âncora melódica ou narrador emocional?
Os vocais acabam sendo o elemento central de todas as músicas, independentemente de termos escrito pensando nisso ou não. Então precisam ser os três ao mesmo tempo. Eles contam a história, carregam a mensagem e também ajudam a sustentar os instrumentais, especialmente quando há riffs mais complexos acontecendo.
10. A reação do público já influenciou decisões de produção futuras?
Até certo ponto, sim. Queremos escrever e tocar o material que gostamos, mas qualquer banda que diga que não se importa com o que os fãs pensam provavelmente está mentindo. Tentamos coisas novas neste próximo disco e esperamos que os fãs sintam o mesmo quando ouvirem os passos que demos. Se não, ouvimos, aprendemos e seguimos em frente.
11. Um show do Black Coast é uma reprodução do estúdio ou uma reinvenção?
Ambos — ou talvez nenhum. Tentamos tocar as músicas como as pessoas as ouviram no disco, mas adicionamos alguns floreios quando parece apropriado… ou às vezes quando não parece! Nunca vi alguém reclamar que o Killswitch Engage “estragou” uma música por colocar harmônicos demais. Tocamos ao vivo para nos conectar diretamente com o público, e nos divertimos muito com isso.
12. Medo ou adrenalina antes do show influenciam a energia da performance?
Scott e Alex sofrem bastante com medo de palco — mesmo que isso não pareça para quem assiste. Mas isso se transforma em adrenalina durante o show. A chave é controlar essa energia para que ela vire algo positivo e não ficar tremendo como um cachorro apavorado no palco.
13. Qual é o maior risco hoje: ser ignorado ou ficar preso à própria fórmula?
Prefiro que as pessoas nos ouçam fazendo músicas parecidas repetidamente do que sermos como uma árvore caindo na floresta sem ninguém por perto para testemunhar.
14. O que surpreenderia genuinamente quem escuta Black Coast?
É difícil dizer, porque para nós parece normal. Mas talvez as pessoas esperem outra coisa pela aparência da banda. Na verdade, somos só caras que gostam de uma noite tranquila, uma bebida quente e descansar cedo. A fase “vida de rockstar” já ficou para trás.
Drown Out já está disponível em todas as plataformas digitais.
Dê o play e descubra o próximo passo na trajetória sonora do Black Coast.
https://www.instagram.com/blackcoastuk
