A Sinfonia Sombria de Nosferatu (2024): Entre Bram Stoker, Neurociência e Música

Bianca Capobianco

Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.

Foto: Divulgação

A noite cai sobre o castelo, e cada sombra parece sussurrar segredos ancestrais. Em Nosferatu (2024), a trilha sonora não é mero acompanhamento e sim um personagem invisível que manipula emoções a cada acorde e sintetizador. Entre easter eggs sonoros e samples esquecidos, a música conduz o espectador ao coração do terror gótico, onde a cultura geek encontra seu lado mais sombrio.

Logo na abertura, a combinação entre a cinematografia de Jarin Blaschke e a trilha de Robin Carolan cria uma imersão imediata. Os acordes dissonantes e melodias etéreas acompanham a ascensão do Conde Orlok (Bill Skarsgård) e a introdução de Ellen Hutter (Lily-Rose Depp), estabelecendo a tensão entre desejo proibido e maldição eterna.

Mas não é possível compreender a estratégia sonora premiada de Nosferatu sem retornar à literatura. Bram Stoker, o pai do gótico moderno, estabeleceu no romance Drácula (1897) a imagem aristocrática do vampiro: humanoide, erótico e intelectual; o que influenciou toda a mitologia vampírica posterior. Seu terror psicológico abriu espaço para a mistura de medo, erotismo, ciência e tecnologia, servindo de base para adaptações cinematográficas, trilhas sonoras e até estudos neurocientíficos.

Stoker já explorava o contraste entre racionalidade e sobrenatural. O fonógrafo mencionado por Jonathan Harker, uma novidade tecnológica de sua época, simbolizava a tentativa da ciência de registrar e compreender o inexplicável. Dualidade que ressurgiu agora na trilha sonora de Carolan, transformando sons em experimentos de tensão e distorção da realidade.

De Murnau a Coppola: a herança cinematográfica

O Nosferatu de F.W. Murnau (1922) foi a primeira adaptação não autorizada de Drácula, alterando nomes de personagens por questões de direitos autorais (Drácula tornou-se Orlok). Ainda assim, Murnau preservou a essência da obra, tornando-se marco do expressionismo alemão. Décadas depois, a adaptação de Francis Ford Coppola (1992) aprofundou a dimensão sensual e trágica do vampiro, trazendo a trilha icônica de Wojciech Kilar a há quem tenha notado a referência direta durante o longa atual reforçando a ideia de releitura moderna e gancho entre os dois audiovisuais.

Robin Carolan: a música como personagem

Descrita como “hipnoticamente assustadora”, a trilha de Carolan é um exercício de experimentação sensorial. O compositor britânico, conhecido por texturas densas e drones eletrônicos, evoca sons mecânicos antigos (como a caixa de música) para conectar o filme diretamente à literatura de Stoker.

Há referências sutis à trilha de Wojciech Kilar (1992), criando continuidade na sonoridade do mito. Entre suas inspirações, estão o compositor húngaro Béla Bartók e a banda experimental britânica Coil. Bartók, famoso por explorar escalas incomuns e ritmos assimétricos, inspira faixas como Incantation e Herr Knock. Já a atmosfera etérea e sombria de Coil ecoa em Increase Thy Thunders e The Castle, com drones, ruídos industriais e manipulação eletrônica.

Na herdeira cinematográfica dessa tradição literária de Stoker, Carolan alcançou quatro indicações ao Oscar de 2025 com sua obra de arte (vulgo trilha sonora) e recebeu o prêmio de Melhor Trilha Sonora de thrillers no Hollywood Music in Media Awards. Não seria para menos.

Uma experiência neurocientífica

Mais do que música, Carolan construiu um verdadeiro estudo emocional de forma inconsciente. As dissonâncias herdadas de Bartók ativam a amígdala cerebral, provocando respostas ligadas ao medo instintivo, enquanto as texturas sombrias inspiradas em Coil amplificam a tensão psicológica. Cada faixa se torna uma experiência visceral: em Goodbye, os acordes menores e a melodia arrastada evocam o luto e a melancolia de Ellen; em Incantation, os ritmos irregulares e as dissonâncias geram desconforto e instabilidade; já em The Castle, a fusão entre dança clássica e harmonias perturbadoras traduz o conflito íntimo entre desejo e condenação eterna. Todas essas escolhas foram pensadas para ativar áreas específicas do cérebro ligadas às emoções e à tomada de decisão, intensificando a imersão do espectador em cada cena.

Toda a sonoplastia foi pensada para um ambiente tridimensional, explorando tecnologias como Dolby Atmos. Mas o verdadeiro diferencial está no tom melancólico da trilha. Carolan foge do clichê do terror, optando por uma atmosfera trágica e bela que se alinha perfeitamente às performances dos atores, tornando um mero filme em um verdadeiro espetáculo.

Nota-se que Nosferatu (2024) prova que o horror não se vê apenas com os olhos. Ele se sente na pele e no cérebro. Uma sinfonia gótica que une literatura, música e neurociência em uma experiência cinematográfica completa. Se teria como ser melhor do que isso? Duvido.

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  • Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.

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