Luana Cabral de Oliveira

A chuva começou antes mesmo da primeira nota — e, curiosamente, ajudou a construir o clima da noite. Na fila do Vibra São Paulo, parte do público acabou se molhando enquanto aguardava a abertura dos portões. Ninguém parecia realmente incomodado. Havia ali uma sensação curiosa de reencontro coletivo: fãs que cresceram ouvindo aquelas músicas no rádio, em CDs gastos ou trilhas de novela, agora reunidos numa casa lotada e com ingressos esgotados.
Quando as luzes finalmente diminuíram, a expectativa era palpável. A última passagem de Bryan Adams pelo Brasil havia sido em 2019. Seis anos depois, o reencontro em São Paulo tinha menos cara de nostalgia e mais de continuidade.
Um começo inesperado, no meio do público
O primeiro gesto da noite também foi o mais simbólico. Em vez de surgir no palco, Bryan Adams apareceu no meio da plateia. Sem grande aviso, cercado por fãs incrédulos, começou ali mesmo as primeiras músicas do show em formato acústico.
“Can’t Stop This Thing We Started”, “Straight From the Heart” e “Let’s Make a Night to Remember” foram executadas praticamente no nível do público, transformando a abertura em algo íntimo apesar do tamanho da casa. Antes da terceira, Adams comentou o próprio título da música e prometeu aos paulistanos “uma noite para lembrar”. A frase poderia soar protocolar em qualquer outro contexto — ali, cercado por fãs cantando cada verso, pareceu apenas uma constatação. E, ao longo da apresentação, a promessa acabou se cumprindo naturalmente.
Um veterano confortável no próprio repertório
Aos 66 anos, Bryan Adams já não precisa provar muita coisa. Sua presença de palco continua baseada em algo simples e raro: confiança absoluta nas próprias canções.
A voz permanece firme e muito próxima das gravações clássicas, especialmente nas baladas que marcaram sua carreira. Em momentos como “Please Forgive Me” ou “Heaven”, ficou claro que Adams conhece perfeitamente o alcance e a força do próprio timbre — e sabe usá-los com inteligência. Não há esforço desnecessário ou dramatização exagerada: apenas um cantor que domina completamente o material que está apresentando.
E o público responde como se cada música fosse um hino pessoal. Em vários momentos, o Vibra virou um enorme coro coletivo.
O momento atual da carreira
A turnê chega logo após o lançamento de Roll with the Punches, trabalho recente que reafirma uma característica constante da carreira do canadense: ele não parece interessado em reinventar radicalmente sua identidade sonora.
O álbum se encaixa com naturalidade em sua discografia — rock direto, guitarras clássicas e refrões amplos. Ao vivo, as músicas mais novas convivem sem atrito com os sucessos históricos, funcionando quase como extensões naturais do repertório que o público já conhece de cor.
Banda eficiente, protagonista absoluto
A banda de apoio merece reconhecimento. Extremamente competente e entrosada, sustenta o peso das músicas com precisão e discrição. Visualmente posicionados mais ao fundo do palco, os músicos funcionam como uma engrenagem bem calibrada que mantém tudo em movimento.
A decisão é clara: o centro da narrativa visual da noite é Bryan Adams. E isso funciona.
Visualmente, o show aposta em elegância e simplicidade. A iluminação trabalha com contrastes bem definidos e cores quentes, enquanto o público recebeu pulseiras luminosas, criando um efeito visual bonito durante vários momentos da apresentação.
O som da casa estava limpo e equilibrado — guitarras bem definidas e vocais claros, permitindo que cada detalhe das músicas fosse ouvido com nitidez.
Durante cerca de duas horas de apresentação, Adams percorreu diferentes fases da carreira enquanto o público acompanhava praticamente todas as músicas em coro, transformando o Vibra em um grande karaokê coletivo.
Um dos momentos mais espontâneos da noite veio com o cover de “Twist and Shout”, clássico eternizado por The Beatles. Ali, o clima de karaokê coletivo virou praticamente uma pista de dança improvisada: foi provavelmente o trecho em que o público mais cantou, pulou e dançou, transformando o Vibra em um coro barulhento e festivo.
Perto do fim, ao cantar “Have You Ever Really Loved a Woman?”, Adams ainda brincou com a plateia ao adaptar o verso para “Have you ever really loved a Brazilian woman?”, arrancando outro dos momentos mais calorosos da noite.
O que ficou depois da última nota
Talvez o aspecto mais interessante desse show seja perceber que tanto o artista quanto o público já atravessaram décadas juntos. Ninguém ali tenta fingir juventude eterna — mas a energia permanece a mesma de velhos roqueiros românticos que ainda acreditam nas próprias músicas.
E quando tudo terminou, ficou claro:
Bryan Adams não revisita o passado no palco — ele simplesmente continua vivendo dentro dele, com uma naturalidade que poucos artistas conseguem manter.
Setlist Bryan Adams – Vibra São Paulo
- Can’t Stop This Thing We Started
- Straight From the Heart
- Let’s Make a Night to Remember
- Kick Ass
- Run to You
- Somebody
- Roll With the Punches
- Do I Have to Say the Words?
- 18 til I Die
- Please Forgive Me
- It’s Only Love
- Shine a Light
- Heaven
- Never Ever Let You Go
- This Time
- Heat of the Night
- Make Up Your Mind
- You Belong to Me
- Twist and Shout
- Have You Ever Really Loved a Woman?
- When You Love Someone
- So Happy It Hurts
- Will We Ever Be Friends Again
- Here I Am
- When You’re Gone
- The Only Thing That Looks Good on Me Is You
- (Everything I Do) I Do It for You
- Back to You
- Summer of ’69
- Cuts Like a Knife
- All for Love
