Tupi & Os Crocodilos de Marte: entre o caos e a melodia

Bianca Capobianco

Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.

A reinvenção do indie rock brasileiro que nasce longe da mesmice


Créditos: Larissa Brandão

Tupi & Os Crocodilos de Marte não surgiram para ser “mais uma banda de indie rock”. Desde o começo, a intenção foi clara ainda que intuitiva: buscar um som menos genérico, mais autoral, que refletisse quem eles são e o momento que vivem. “Desde o início a gente busca essa autenticidade”, contam. E isso diz menos sobre estratégia e mais sobre maturidade.

Formada por Tupi (guitarra e vocais), Tarciso Eufrásio (guitarra), Renan Calvo (baixo) e Luciano Leres (bateria), a banda vem do Vale do Paraíba, em São Paulo, mas não carrega a região como rótulo estético. A influência aparece de outro jeito: nas vivências, nas histórias e nos sentimentos que atravessam as letras. O território é emocional antes de ser geográfico.

O nome “Tupi & Os Crocodilos de Marte” nasceu de uma brincadeira entre amigos. Uma sucessão de ideias jogadas no ar até que uma soasse “legal o suficiente” para ficar. O curioso é que, mesmo sem pretensão conceitual inicial, o nome acabou se tornando um convite ao estranhamento, abrindo espaço para um universo próprio, fora da lógica óbvia.

Se tivessem que explicar a banda para alguém que nunca ouviu indie rock brasileiro, eles preferem a honestidade ao marketing: “Somos uma banda de rock que foge um pouco da mesmice”. O diferencial aparece na estética moderna, no uso de efeitos nas guitarras e no baixo, e na recusa a repetir fórmulas já gastas dentro da cena.

O novo single nasce de um ponto emocional simples e universal: um relacionamento que não deu certo. Não uma história específica, mas um sentimento recorrente. Para este trabalho (que faz parte de um álbum maior) o grupo buscou experiências em comum e transformou essas vivências em música. O resultado é uma faixa mais pesada, mais encorpada e mais intensa do que os lançamentos anteriores.

“A gente se permitiu arriscar mais”, explicam, principalmente nas guitarras, nos arranjos vocais e em uma linha de baixo que puxa o refrão com força. O peso não é gratuito: ele surge como extensão natural da narrativa. E se houvesse uma frase que resumisse tudo o que queriam comunicar, eles não hesitam em rir da própria franqueza: o refrão. “Deu merda.”

Visualmente, a música poderia facilmente virar cinema. Para a banda, ela se parece com uma cena de término conturbado, daquelas sem trilha suave, sem corte limpo. Direta, desconfortável, real. As letras do grupo caminham exatamente nesse limite: entre o íntimo e a observação do mundo, sem separar o que acontece fora do que reverbera por dentro.

Eles acreditam que a música não precisa ter uma mensagem fechada. Pelo contrário. “Quando a arte vai pro mundo, ela deixa de ser exclusiva do artista”, afirmam. O espaço para interpretação é essencial, e cada ouvinte encontra seu próprio reflexo nas canções.

As referências ao indie rock dos anos 2000 são assumidas com carinho, mas sem nostalgia cega. Eles absorvem a estética e a energia da época, mas fazem questão de evitar o que nunca dialogou com quem eles são. É justamente aí que o som se distancia das comparações mais óbvias do indie nacional. Enquanto muitos seguem uma pegada vintage, Tupi & Os Crocodilos de Marte apostam em uma roupagem atual, contemporânea, sem verniz retrô.

O processo criativo não segue uma regra fixa. Cada faixa nasce de um lugar diferente. O single, por exemplo, surgiu em um dia de apagão. Sem energia elétrica, restaram apenas violão, papel e caneta. Do caos, nasceu a música. E dentro desse caos organizado, Tarciso é apontado como quem mais tensiona o processo criativo no melhor sentido possível.

No palco, a prioridade clara é entrega emocional. A técnica importa, mas não sobrevive sozinha. Mesmo em apresentações intimistas, a banda busca agitar, criar troca, transformar o espaço em experiência coletiva. Ao vivo, os timbres mudam, mas a intensidade permanece e a faixa ganha outra camada de energia.

Para eles, o indie rock no Brasil hoje vive entre resistência e reinvenção. E é exatamente nesse cruzamento que a banda se posiciona. Este single não é uma virada isolada, mas parte de um arco maior: um álbum com 12 faixas que chega ao mundo em maio, acompanhado de mais dois lançamentos. Por isso, fiquem ligados.

O que eles esperam que mude depois desse lançamento? Um público cada vez mais ativo e próximo. Porque, segundo a banda, é essa escuta atenta que sustenta a continuidade do trabalho. As mensagens que mais marcam são as de identificação profunda quando alguém diz: “parece que vocês escreveram sobre mim”.

Meses após o lançamento do single e com um álbum a caminho, Tupi & Os Crocodilos de Marte seguem em movimento, equilibrando energia, amizade e reinvenção. Entre riffs, histórias compartilhadas e escolhas conscientes, a banda constrói um som que não tenta agradar todo mundo mas faz questão de ser verdadeiro.

O novo single se constrói a partir de um mecanismo de identificação quase imediata. A letra opera como espelho emocional, enquanto o arranjo cria um ambiente de acolhimento rítmico que sustenta essa narrativa sem diluí-la. A música é guiada por uma progressão sonora bem resolvida, que alterna tensão e liberação com inteligência, mantendo o ouvinte engajado do primeiro ao último compasso. As guitarras trabalham em camadas, ora conduzindo, ora texturizando, enquanto baixo e bateria estabelecem um groove estável e pulsante, responsável por ancorar a faixa no corpo antes de atingir a mente.

O resultado é uma canção animada e intensa, com refrão de alta retenção, daqueles que se fixam por repetição inconsciente, não por insistência. Há clareza estrutural, impacto emocional e fluidez narrativa suficientes para fazer com que o ouvinte não apenas escute, mas se reconheça na música e, ao final, sinta vontade imediata de apertar o play mais uma vez. Mas eu nem preciso falar muito, é só vocês ouvirem abaixo que vão entender perfeitamente o que estou falando.

Mas antes, a seguir, eles falam com mais profundidade sobre processo criativo, estética, palco, bastidores e o futuro do indie rock brasileiro. Um papo direto, leve e sem pose, do jeito que a música deles soa. Se liga.

Em que momento vocês perceberam que o som da banda já não era “só mais um indie rock”, mas algo com identidade própria?

Desde o início da banda a gente busca essa autenticidade… um som menos genérico e sim com bastante identidade… isso diz muito sobre a nossa personalidade em si e a nossa maturidade.

O Vale do Paraíba influencia a estética, a postura ou o som de vocês de alguma forma?

Não… o Vale do Paraíba influencia mais nas vivências né por sermos daqui e acaba que as histórias e letras saem bastante daqui… mas em relação ao som na influência muito não
Se vocês tivessem que explicar a banda para alguém que nunca ouviu indie rock brasileiro, como fariam em uma frase honesta (sem marketing)?
Somos uma banda de rock que foge um pouco da mesmisse… usamos alguns efeitos nas nossas guitarras e no baixo pra assumir uma estética um pouco mais moderna.

Qual foi o ponto de partida emocional ou narrativo do novo single?

A música fala sobre um relacionamento que não dá certo e esse foi o ponto de partida pra escrevermos ela…

Essa música nasceu de uma vivência específica ou de um sentimento recorrente?

Recorrente… na verdade pra escrever o álbum buscamos algumas experiências que temos em comum e colocamos as letras nas músicas.

O que essa faixa diz que vocês ainda não tinham conseguido dizer nos singles anteriores?

Acho que essa música traz um peso a mais no instrumental em relação as outras… o som está um pouco mais encorpado… um rock mais intenso.

Em termos sonoros, onde vocês se permitiram arriscar mais nesse lançamento?

Creio que nas guitarras e no arranjo de vocais! Estão bem legais e trabalhados! Aaah e o baixo do refrão o Renan fez uma linha sinistra também!

Existe uma frase da música que resume tudo o que vocês queriam comunicar com esse single?

Ahahahaha acho que o refrão né… “deu merda”.

As letras da banda costumam partir mais do íntimo ou da observação do mundo ao redor?

Os dois! Estamos sempre atentos ao nosso redor e também ao interior.

O que vocês esperam que o ouvinte sinta na primeira escuta e o que esperam que ele descubra na décima?

Na primeira alegria né! Queremos nossos ouvintes sempre felizes! Na décima que ele descubra que a música é realmente tão boa que ele tocou 10 vezes e tá indo pra 11ª.

O indie rock dos anos 2000 aparece como referência. O que vocês absorvem dessa época e o que fazem questão de evitar?

Aaaaah época boa hein! A gente absorve tudo com certeza! Gostamos muito da estética dos anos 2000… acho que evitar a gente evita o que a gente não gostava mesmo.

Como funciona o equilíbrio criativo entre os quatro integrantes na construção das músicas?

A gente é muito amigo e se entende muito bem! Já trabalhamos muito juntos com produção musical e em outros projetos… então nos entendemos muito bem.

Onde normalmente nasce uma faixa do Tupi & Os Crocodilos: riff, letra, batida ou caos?

Cada música do álbum nasceu de uma forma hahaha a deu merda por exemplo nasceu de um dia que acabou a energia E ai restou um violão papel e caneta pra transformar ela em música.

O que muda nessa música quando ela é tocada ao vivo?

Creio que só os timbres mesmo! Mas a versão ao vivo é bem irada também! Uma das que a gente mais gosta de tocar.

Esse single marca uma virada estética ou é parte de um arco maior que ainda está se revelando?

Parte de um arco maior que é o nosso álbum que chega ao mundo em Maio.

O que vocês querem que mude na percepção do público depois desse lançamento?

Queremos o público cada vez mais ativo porque tem muito por vir! Acho que um público antenado dá mais forças pra que a gente possa desenvolver mais e mais trabalhos.

Para quem está prestes a apertar o play, o aviso vem sem filtro, do jeito que eles gostam: curta sem moderação.

Vale a pena.

LINK DO LANÇAMENTO: https://open.spotify.com/intl-pt/track/5hG0Vm1ZZsAH9Qx4zHEjrv?si=4400a2c713214026

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  • Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.

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