Flávio Benelli
Formado em Direito pela Puc-Campinas, pós-graduado em Jornalismo. Criador e administrador do perfil @lets.gorock no Instagram. Sempre fui apaixonado pelo Rock. Escrever sobre música é minha forma de compartilhar a energia e a emoção que o rock me proporciona, enquanto mergulho nas histórias fascinantes por trás das músicas e dos artistas que moldaram esse universo. Junte-se a mim nessa jornada onde cada riff é uma história e cada batida é uma experiência inesquecível.

A manhã do dia 24 em São Paulo começou cinza e encharcada. Do lado de fora do Estádio do Morumbis, fãs que encararam fila desde cedo viram a chuva castigar camisetas pretas e maquiagens de capetinha. Mas, quando os portões se consolidaram como o único horizonte possível, o tempo abriu — e nenhuma gota voltou a cair durante o show. Sinal que os “Deuses do Rock” estavam ali, de olho no que seria a apresentação que estava prestes a acontecer. Dentro do estádio, milhares de “chifrinhos” vermelhos piscavam como um painel elétrico improvisado. A expectativa não era só alta; era histórica. Foram 16 anos sem a banda no Brasil.
Abertura com The Pretty Reckless

Pontualmente às 19h30, o The Pretty Reckless assumiu o palco. Taylor Momsen — ainda lembrada por muitos como a criança ‘O Grinch’, filme com Jim Carrey — tratou de sepultar qualquer resquício de associação com aquela garotinha do filme. O que se viu foi uma frontwoman segura, voz rasgada no ponto certo e domínio de palco compatível com arenas. A banda aqueceu o público com competência e deixou o terreno pronto para o que viria. Com ‘Going to Hell’ sendo o ponto alto do show de abertura.
AC/DC: As lendas entre nós

Quando o AC/DC surgiu com “If You Want Blood (You’ve Got It)”, a resposta foi imediata — mas o que impressionou não foi o volume do coro, e sim a precisão. A engrenagem funcionou com a eficiência quase industrial que a banda construiu ao longo de cinco décadas. Em 2026, promovendo a fase do álbum Power Up (2020) e consolidando um retorno resiliente após anos turbulentos, o grupo soa menos como um ato nostálgico e mais como uma instituição que se recusa a virar peça de museu.
Angus Young, aos 70 anos, veste o uniforme verde com chapéu verde e amarelo com a letra ‘A’ em azul em homenagem ao Brasil e parece decidido a desmentir qualquer vídeo recente que questione sua vitalidade. Se há mesmo um investimento pesado em fisioterapia, ele se traduz em resultado visível: os pulos característicos seguem intactos, os solos continuam articulados com clareza cirúrgica e a resistência física impressiona. Em “Let There Be Rock”, ele transformou o estádio em sala de aula por cerca de 20 minutos de solo ininterrupto. A banda recuou, o foco de luz fechou nele, e o guitarrista não apenas sustentou a atenção — ele a expandiu. Emendou diretamente nas duas faixas finais, como quem recusa intervalo. E que disposição meus amigos!
No centro desse furacão controlado, Brian Johnson entregou um vocal surpreendentemente afiado, lógico que com as limitações da idade. Depois de ter sido forçado a interromper a turnê Rock or Bust em 2016 por risco de perda auditiva, havia dúvidas legítimas sobre sua capacidade em longas sequências. Elas não se sustentaram no Morumbis. “Back in Black”, “Hells Bells” e “Highway to Hell” soaram próximas das versões de estúdio — talvez menos polidas, mas mais densas. O timbre continua áspero, porém estável; não há truques evidentes, apenas técnica adaptada à própria história.
O setlist equilibrou a fase Bon Scott e a era Johnson com inteligência. “Jailbreak” teve peso simbólico: não era executada no Brasil desde a estreia da banda no primeiro Rock in Rio, em 1985. O resgate não soou gratuito; encaixou-se como reafirmação de legado. Já as faixas recentes, como “Demon Fire” e “Shot in the Dark”, provaram que o repertório pós-2000 ainda respira dentro da narrativa clássica da banda.
Tecnicamente, o show foi sólido. A iluminação apostou em tons quentes e cortes precisos, com o sino gigante descendo em “Hells Bells” e os clássicos canhões em “For Those About to Rock (We Salute You)” funcionando como signos reconhecíveis, não como muletas visuais. O som, considerando as dimensões do estádio, manteve definição surpreendente nas guitarras e bom equilíbrio entre bumbo e baixo. A química, de anos, entre os músicos é de quem já não precisa provar entrosamento.
O público esteve intensamente empolgado do início ao fim, com direito até a sinalizador aceso na pista, ampliando a atmosfera quase ritualística que tomou conta do estádio.
Ao final, com os canhões disparando e o público ainda em coro, ficou a sensação de que o AC/DC não está fazendo turnês de despedida — está reafirmando território. EQuem foi esperando testemunhar um adeus talvez tenha presenciado algo mais inquietante: uma banda veterana que se recusa a agir como tal. No Morumbis, o rock não soou como memória; soou como permanência.
Setlist AC/DC dia 24/02
- If You Want Blood (You’ve Got It)
- Back in Black
- Demon Fire
- Shot Down in Flames
- Thunderstruck
- Have a Drink on Me
- Hells Bells
- Shot in the Dark
- Stiff Upper Lip
- Highway to Hell
- Shoot to Thrill
- Sin City
- Jailbreak
- Dirty Deeds Done Dirt Cheap
- High Voltage
- Riff Raff
- You Shook Me All Night Long
- Whole Lotta Rosie
- Let There Be Rock
- T.N.T.
- For Those About to Rock (We Salute You)
Setlist The Pretty Reckless dia 24/02
- Death by Rock and Roll
- Since You’re Gone
- Follow Me Down
- Only Love Can Save Me Now
- For I Am Death
- Witches Burn
- Make Me Wanna Die
- Going to Hell
- Heaven Knows
- Take Me Down
