Bianca Capobianco
Bianca Capobianco é jornalista, marketeira e escritora apaixonada por artes (especialmente música). Com 13 anos de experiência prática em comunicação, passou por veículos como Solta o Pause, Revista 89 e VICE Brasil, além de ter atuado como editora e colunista da revista digital Sobre Café e Cigarro. Hoje, como co-founder e CEO da Syra, agência de neuromarketing 360, conduz estratégias que combinam criatividade, tecnologia e sensibilidade artística.
A fúria com propósito do novo rock feminino brasileiro.

A Malvada nasceu em 2020, no silêncio de uma pandemia que paralisou o mundo. Enquanto tudo desacelerava, quatro mulheres decidiram fazer o oposto: amplificar o barulho que carregavam por dentro.
De lá pra cá, o som deixou de ser promessa e virou movimento.
Com Indira Castillo na voz, Bruna Tsuruda na guitarra, Rafaela Reoli no baixo e Juliana Salgado na bateria, a banda construiu uma trajetória meteórica, transformando o peso do rock em linguagem própria.
Em pouco tempo, colecionou mais de 100 apresentações pelo país, dividiu palco com Pitty, Angra, Extreme e Tom Morello (Rage Against the Machine), e incendiou palcos de festivais como Rock in Rio, Best of Blues and Rock e Angra Fest.
Em 2023, o som atravessou fronteiras e a banda assinou com a gravadora italiana Frontiers Music Records, casa de nomes como Whitesnake, Mr. Big e Jeff Scott Soto, e foi citada pela Rolling Stone Brasil entre os 25 artistas que desenham o futuro da música nacional.
Agora, em 2025, o grupo lança seu segundo e mais ambicioso trabalho: o álbum homônimo “Malvada”, com 11 faixas, sendo 3 em português e 8 em inglês. Produzido por Giu Daga, tricampeão do Grammy Latino, e com produção executiva da TC7 Produções, o disco consolida o nome da banda entre as forças criativas mais relevantes do rock brasileiro atual.
É um álbum que carrega a precisão do estúdio e a urgência do palco, feito por quem entende que técnica e emoção não precisam se anular.Cada faixa soa como um manifesto. O som de quem não veio ocupar espaço, mas criar o próprio território.
É o tipo de trabalho que consolida uma banda não apenas pelo som, mas pela coerência entre conceito, performance e identidade.
A primeira coisa que se percebe ao ouvir o novo disco é o silêncio.Não o literal, mas o espaço interno de onde o som nasce. “O silêncio é o início do barulho”, dizem elas e há verdade nessa frase. É nesse intervalo de respiro que cada nota encontra sua intenção.
Carregando o peso e a sutileza do rock em partes iguais, a Malvada construiu um álbum que nasce da necessidade, não da moda nem do algoritmo. “A música vem da necessidade”, explicam. “Às vezes da raiva, do desejo, da culpa… mas sempre de algo que estamos sentindo ou vivendo.” É a licença poética de quem transforma sentimento em som e encontra na vulnerabilidade a matéria-prima da força.
O som não busca caber em rótulos. Misturando a fúria do punk, o peso do metal e o delírio da psicodelia ditando um encontro que o caminho se desenha. Há riffs cortantes, vozes que soam como confissões e arranjos que alternam impacto e vulnerabilidade.
No palco, o medo vira eletricidade. Mesmo com o frio na barriga a cada apresentação, elas deixaram claro que é justamente esse medo que “vira corrente elétrica e as faz pisar com mais força no chão”. A performance é o ponto onde o som se materializa no corpo e a banda sabe que ali reside a verdade do rock: o erro vivo, o risco constante, o arrepio coletivo.
No estúdio, o equilíbrio entre técnica e instinto é constante.
O álbum leva a assinatura de Giu Daga, que mais do que um colaborador, tornou-se parte do enredo criativo, moldando, questionando e reconstruindo junto com as artistas. Produtor de nomes como Titãs, NX Zero e CPM22, Giu foi determinante para lapidar o som sem apagar suas arestas.“O Giu fez a gente se ouvir de um jeito diferente”, contam. “Despertou em nós a vontade de entregar um trabalho que nunca tínhamos feito antes.”
As composições foram desmontadas e refeitas até encontrarem o ponto de equilíbrio entre visceralidade e precisão. “A visceralidade termina quando a música perde sua verdade. A engenharia existe para dar forma sem apagar a emoção”, dizem.
E foi exatamente isso que provaram, com maestria, em todas as faixas do álbum.
Por trás do peso, há minúcia.
As artistas revelam segredos de estúdio que poucos percebem: “Em I’m Sorry, há o som de um coração batendo; em Como se fosse hoje, uma cítara abre a faixa; e em Fear, deixamos um trecho em português escondido! Era a letra original antes da versão em inglês.”
Pequenos gestos que reforçam que o rock também é um espaço de sutilezas, de camadas sonoras que respiram entre o grito e a pausa.
Em tempos de algoritmos e playlists, manter identidade virou ato de coragem.Elas reconhecem: é uma luta constante equilibrar arte e mercado. “Queremos que a música seja verdadeira, mas também precisamos dialogar com a indústria. O segredo é não deixar que o mercado dite nossa identidade. Usamos os recursos dele para amplificar nossa arte, não para moldá-la.”
Essa coerência se estende à estética. “Cada clipe, cor e textura faz parte do mesmo universo”, dizem. “A imagem amplifica o sentimento que queremos passar.”
No fim, o sucesso é medido por algo simples e quase antigo: arrepio. “Se a música toca alguém, se a pele arrepia, cumpriu seu papel.” afirmam.
Há algo de cura e de confissão nesse processo.
A vulnerabilidade que fundou a Malvada é combustível.
Hoje, cada show é uma catarse controlada, um espelho entre artista e plateia.
O novo trabalho da banda traduz esse equilíbrio raro. A entrega visceral com acabamento preciso.
É o resultado de um diálogo constante entre instinto e técnica, entre Giu Daga e as quatro artistas que transformam medo em força e silêncio em som.
Elas acreditam que um disco não precisa gritar para ser forte, basta ser verdadeiro.
Meses após o lançamento do álbum Malvada, o grupo segue colhendo os frutos de um trabalho que marcou uma nova fase em sua trajetória.
Entre compromissos de divulgação e a rotina intensa de apresentações, a banda topou um papo comigo, compartilhando bastidores da criação, da parceria com Giu Daga e dos caminhos que o rock feminino ainda precisa percorrer.
O papo sincero, direto e cheio de camadas, revela muito sobre a essência que move a Malvada: a busca por verdade, a entrega sem filtro e a vontade de deixar o som falar por elas.
A seguir, um mergulho na visão, na vulnerabilidade e na força criativa de uma das bandas mais autênticas do rock brasileiro atual. Se liga:
1. Meninas, pra começar leve: se cada uma de vocês fosse um pedal de efeito, qual seria e por quê?
Eu seria o overdrive. Juliana seria o afinador. Indira seria o delay ou phaser. Rafaela seria o noise gate. Vou deixar cada um imaginar o porquê, haha.
2. E quando o assunto é criação… o silêncio dentro do estúdio tem peso pra vocês, ou o rock nasce sempre do excesso?
O silêncio é o início do barulho. É onde a ideia começa a ganhar corpo. Sem ele, o som não tem contraste. O silêncio do estúdio inspira.
3. Falando em processo criativo, vocês acreditam que uma faixa nasce pronta ou precisa ser destruída e reconstruída até encontrar o ponto certo?
O processo de destruir e reconstruir é o que faz a música respirar e nascer. Nosso processo de composição e de arranjo do novo álbum foi exatamente assim.
4. E como vocês percebem o momento em que uma música deixa de ser apenas som e passa a ser, de fato, a cara da banda?
Quando ela dói e dá orgulho ao mesmo tempo. Quando parece que ela nos escolheu, não o contrário.
5. Dentro do estúdio, existe sempre o dilema entre o take perfeito e o erro que soa mais vivo. O que pesa mais pra vocês?
Nesse álbum, a maioria dos takes foram os mais perfeitos… mas claro que tem algumas coisas imperfeitas no meio. A imperfeição deixa tudo mais orgânico e real.
6. E quando vocês produzem, como equilibram o instinto cru do rock com a necessidade técnica de lapidar o som?
Esse último álbum a gente prezou muito mais pela musicalidade do que pela tecnicidade. Buscamos principalmente fazer músicas marcantes, com letras significativas e melódicas. O instrumental “técnico” foi consequência do que cada música pedia. Isso é algo que priorizamos muito nesse segundo trabalho de estúdio. Com muito cuidado e com o auxílio do Giu a todo momento, fomos equilibrando tudo isso.
7. Nesse equilíbrio, onde termina a visceralidade e começa a engenharia?
A visceralidade termina quando a música perde sua verdade. A engenharia existe pra dar forma sem apagar a emoção, para que cada nota diga o que precisamos contar, sem perder a alma.
8. E entre essas decisões de estúdio, qual foi a mais arriscada que vocês já tomaram em uma faixa?
A faixa Fear vem com um instrumental muitíssimo bem pensado em cada parte, e ela carrega um elemento bem especial: o arranjo de cordas, algo que nunca tínhamos feito antes. Trabalhamos com um quarteto de cordas do sul que gravou o lindo arranjo feito pelo Giu. Misturar instrumentos considerados eruditos com o rock é algo bastante ousado e precisa ser muito certeiro para funcionar. Acredito que acertamos.
9. Imagino que esse cuidado traga detalhes que nem todo mundo percebe. Tem algum segredo de mix ou master que vocês escondem com orgulho?
Tiveram alguns que inclusive se relacionam com a letra — como em I’m Sorry, o som de um coração batendo no início e no fim da música; a cítara no início de Como se fosse hoje; e um dos detalhes que a gente mais gosta: o trecho em português dentro de Fear, que era inicialmente a letra original da música antes de passarmos para o inglês.
10. E falando em arranjos: como decidem o que precisa ser mantido orgânico e o que pode ser manipulado digitalmente sem perder identidade?
A gente anda buscando uma sonoridade mais consolidada e que flerte com o que há de mais moderno. Existem muitos recursos digitais, mas prezamos sempre por manter nossa identidade em tudo. Tudo é uma questão de equilíbrio! Com um trabalho minucioso e criterioso, a gente faz esses ajustes durante as produções pra chegar num resultado satisfatório.
11. O resultado final é sempre muito emocional. Como vocês traduzem sentimento em frequência?
Nós quatro somos muito viscerais e costumamos entregar sempre nossa alma nos shows —afinal, é nossa vida, nossa carreira. Cada show tem que ser tratado como se fosse o último, e cada música traduz muita coisa que passamos nas nossas vidas. Tudo isso é muito pessoal; é como se estivéssemos compartilhando com as pessoas quem realmente somos.
12. E quando essa música sai pro mundo, ela ainda pertence a vocês ou já pertence ao público?
Ela ainda carrega nossa alma, mas também pertence a quem escuta. Cada pessoa traz sua experiência, e aí a música passa a ser também delas. É um diálogo que nunca termina.
13. Hoje o streaming dita métricas e números, mas qual é o verdadeiro termômetro artístico pra vocês?
O termômetro é o impacto emocional. Se uma música consegue tocar alguém, fazer a pele arrepiar ou o coração bater mais forte, então cumpriu seu papel. Nossa maior alegria é ver pessoas cantando nossas musicas como se falassem sobre elas nos shows.
14. E dentro dessa era de algoritmos, como diferenciar inovação sonora de puro modismo passageiro?
A diferença está na intenção. Modismo vem de fora para dentro; inovação vem de dentro para fora. Se algo nasce da nossa verdade, pode até dialogar com tendências.
15. Pra encerrar (e sem rodeios), vocês já cansaram da pergunta “como é ser mulher no rock”? Qual seria a resposta definitiva pra tatuar na testa e nunca mais precisar repetir?
Ser mulher no rock é lutar todos os dias usando a música como arma de mudança. É conseguir dar um passo no futuro da música.
“A gente coloca nossa energia 100% em tocar essas músicas no palco e demonstrar nossa sensibilidade ao fazê-lo. Cada show é tratado como se fosse o último”, contam.
E, se depender da energia que carregam, certamente está longe de ser o último.
O álbum “Malvada” já está disponível em todas as plataformas!
Além de um baita som, é uma verdadeira imersão em força, entrega e identidade. Dê o play e descubra por que essas quatro mulheres não apenas tocam rock, elas o redefinem.
Ouça o álbum ‘Malvada’ nas principais plataformas.
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Site oficial: https://malvadabanda.com.br/
